domingo, 1 de março de 2009

Ainda os diários dos outros (5)

Do borbulhar dos ideais.
As estrelas crivavam de luz o céu daquele povoado serrano e o silêncio e o frio tornavam a escuridão imaterial. Era- não sei bem como explicá-lo- como se toda a substância sólida se volatilizasse no espaço etéreo que nos rodeava, nos roubava a individualidade e nos fazia sumir, transidos, na negrura imensa. Nem uma nuvem a bloquear uma porção de céu estrelado, para dar perspectiva ao espaço. No entanto, a uns metros, a luz mortiça de um farol dava alguma cor às trevas circundantes.
A cara do homem perdia-se na sombra. Só emergiam, como centelhas, os seus olhos e a brancura dos quatro dentes dianteiros. Ainda não sei se foi o ambiente ou a personalidade do indivíduo o que me preparou para receber a revelação. Mas sei que ouvira muitas vezes os argumentos empregados, esgrimidos por pessoas diferentes, e nunca me tinham impressionado. Na realidade, o nosso interlocutor era um tipo interessante; fugido, em jovem, de um país da Europa para escapara ao punhal dogmatizante, conhecia o sabor do medo (uma das poucas experiências que nos fazem dar valor à vida). Depois, viajando de país para país e passando por milhares de aventuras, tinha dado com os ossos nessa região afastada e ali esperava pacientemente o momento do grande acontecimento.
Depois das frases triviais e dos lugares comuns com que cada um apresentou a sua posição, quando já a discussão esmorecia e estávamos prestes a separar-nos, ele deixou cair esta frase, com o mesmo riso de garoto pícaro que sempre o acompanhava, acentuando o contraste dos quatro incisivos dianteiros: "O futuro é do povo e, pouco a pouco ou de repente, ele vai conquistar o poder, aqui e em toda a terra. O mau é que tem de civilizar-se e isso não se pode fazer antes, mas depois de tomar o poder. Só se civilizará aprendendo à custa dos seus próprios erros, que serão muito graves, que custarão muitas vidas inocentes. Ou talvez não, talvez não sejam inocentes porque cometerão o enorme pecado contra natura que significa não ter capacidade de adaptação. Todas essas vítimas, todos os inadaptados, você e eu, por exemplo, morrerão maldizendo o poder que contribuíram para criar, com sacrifício às vezes enorme. É que a revolução, na sua forma impessoal, roubar-lhe-á a vida e até utilizará a memória do que deles ficar como exemplo e instrumento para domesticar a juventude que surja.
O meu pecado é maior, porque eu, mais subtil ou com maior experiência, (chame-lhe como quiser) morrerei sabendo que o meu sacrifício corresponde só a uma obstinação. Que simboliza a civilização apodrecida que se desmorona e que mesmo que não modifique em nada o curso da história, ou a impressão pessoal que de mim tenha, você morrerá com o punho fechado e os dentes cerrados, numa perfeita demonstração de ódio e combate, porque não é um símbolo (algo inanimado que se toma como exemplo). Você é um autêntico membro da sociedade que se desmorona: o espírito da colmeia fala pela sua boca e move-se nos seus actos; é tão útil como eu, mas desconhece a utilidade do contributo que dá à sociedade que o sacrifica".
Vi os seus dentes e a expressão picaresca com que se adiantava à história, senti o aperto das suas mãos e, como o murmúrio longínquo, a protocolar saudação de despedida. A noite, depois de recuar ao contacto das suas palavras, tomava-me novamente, confudindo-se com ela. Mas, apesar do que ele dissera, agora sabia...sabia que, no momento em que o grande espírito director der o enorme golpe que dividirá toda a humanidade em apenas duas facções antagónicas, estarei com o povo. E sei, porque o vejo impresso na noite, que eu, o ecléctico dissecador de doutrinas e psicanalista de dogmas, uivando como um possesso, assaltarei as barricadas ou trincheiras, tingirei de sangue a minha arma e, louco de fúria, degolarei todos os vencidos que me caiam nas mãos. E vejo-me, como se um cansaço enorme derrubasse a minha recente exaltação. cair imolado à autêntica revolução estandardizadora de vontades, pronunciando o "mea culpa" exemplar. Já sinto as narinas dilatadas, saboreando o acre odor de pólvora e de sangue, da morte inimiga; já crispo o meu corpo, pronto para a luta, e preparo o meu ser como um reduto sagrado, para que nele ressoe, com vibrações novas e novas esperanças, o uivo bestial do proletariado triunfante.

in Viagem pela América, Ernesto Che Guevara

Ainda os diários dos outros (4)

Dos momentos de verdadeira transcendência e eloquência, elevadas pela sinceridade da palavra jovem e sonhadora.
À noite, depois de passar por casa do doutor Bresciani, que nos presenteou com uma rica e abundante refeição, receberam-nos no nosso refeitório com a bebida nacional, o pisco, de cujos efeitos no sistema nervoso central Alberto tem experiência exacta. Já com ânimos um tanto alegrados, o director da colónia fez-nos um brinde muito simpático e eu, já meio "piscado", elaborei mais ou menos o discurso que se segue:
"Bom, é uma obrigação para mim agradecer com algo mais que um gesto convencional o brinde que nos oferece o Dr. Bresciani. Nas condições precárias em que viajámos, só nos resta a palavra como recurso da expressão afectiva, e é empregando-a que quero manifestar o meu agradecimento, e o do meu companheiro de viagem, a todo o pessoal da colónia que, quase sem nos conhecer, nos proporcionou esta magnífica demonstração de afecto, que significa para nós a deferência de festejar o nosso aniversário, como se fosse a festa íntima de algum de vós. Mas há algo mais; dentro de poucos dias deixaremos o território peruano, e por isso estas palavras assumem um segundo significado, o de uma despedida. Aqui ponho todo o meu empenho em expressar o nosso reconhecimento a todo o povo deste país, que sempre nos cumulou de amabilidades, desde a nossa chegada a Tacna. Quero salientar mais uma coisa, um pouco à margem do tema deste brinde: ainda que a modéstia das nossas pessoas nos impeça de ser porta-vozes de tal causa, cremos, e depois desta viagem mais firmemente que antes, que é completamente fictícia a divisão da América em nacionalidades incertas e ilusórias. Consitituímos uma só raça mestiça que, desde o México até ao estreito de Magalhães, apresenta notáveis semelhanças etnográficas. Por isso, procurando libertar-me de toda a carga de provincialismo estreito, brindo pela Perú e pela América Unida".
As estrelas crivavam de luz o céu daquele povoado serrano e o silêncio e o frio tornavam a escuridão imaterial. Era- não sei bem como explicá-lo- como se toda a substância sólida se volatilizasse no espaço etéreo que nos rodeava, nos roubava a individualidade e nos fazia sumir, transidos, na negrura imensa. Nem uma nuvem a bloquear uma porção de céu estrelado, para dar perspectiva ao espaço. No entanto, a uns metros, a luz mortiça de um farol dava alguma cor às trevas circundantes.

in Viagem pela América, Ernesto Che Guevara

Ainda os diários dos outros (3)

Dos truques cúmplices de qualquer boa amizade.
Quando faltava pouco para amanhecer, encontrámo-nos com um par de bêbados e iniciámos o nosso magnífico número do aniversário. A técnica é a seguinte:
1) Diz-se em voz forte uma frase inicial, por exemplo: "Che, por que não te apressas e não te deixas de parvoíces?". O candidato cai no logro e imediatamente nos pergunta de onde vimos, inicia-se a conversa.
2) Começa-se a contar as dificuldades em voz suave, com o olhar perdido ao longe.
3) Intervenho eu e pergunto a data. Alguém a diz; Alberto suspira e comenta: "Olha que coincidência, faz hoje precisamente um ano!" O candidato pergunta: um ano que quê? Responde-se: que iniciámos a viagem.
4) Alberto, muito mais fiteiro que eu, lança um suspiro terrível e diz: "Que pena estarmos nestas condições! Se não, poderíamos festejar..." (diz-me isto como que confidencialmente). O candidato oferece-se logo e nós fazemo-nos esquisitos um momento, dizendo-lhes que não podemos retribuir-lhe, etc, até que aceitamos.
5) Depois do primeiro copo, eu nego-me terminantemente a aceitar mais um trago e Alberto faz troça de mim. O anfitrião zanga-se e insiste; eu nego-me, sem dar razões. O homem insiste e então eu, muito envergonhado, confesso-lhe que na Argentina o costume é comer enquanto se bebe. A quantidade de comida já depende da cara do cliente, mas é esta é uma técnica bem apurada.


in Viagem pela América, Ernesto Che Guevara

Ainda os diários dos outros (2)

Da viagem (vi)vida.
Assim, a moeda foi lançada ao ar, deu muitas voltas; caiu umas vezes "cara", outras "coroa". O homem, medida de todas as coisas, fala aqui pela minha boca e relata na minha linguagem que os meus olhos viram; na melhor das hipóteses, em cada dez "caras" possíveis só vi uma "coroa", ou vice-versa; é provável e não há atenuantes; a minha boca narra o que os meus olhos lhe contaram. A nossa vista nunca foi panorâmica, foi sempre fugaz, nem sempre equitativamente informada, os juízos são demasiado determinantes? De acordo, mas esta é a interpretação que um teclado dá ao conjunto de impulsos que levaram a martelar as teclas e esses fugazes impulsos morreram. Não há sujeito sobre quem exercer o peso da lei. O personagem que escreveu estas notas morreu ao pisar de novo terra argentina; o "eu" que as ordena e burila não sou eu; pelo menos não sou o mesmo eu interior. Esse vaguear sem rumo pela nossa "Maiúscula América" mudou-me mais do que julguei.

Agora sei, quase com uma fatalista conformação, que a minha sina é viajar, a nossa sina, melhor dito, porque Alberto nisso é igual a mim; no entanto, há momentos em que penso com profundo anseio nas maravilhosas regiões do nosso Sul. Talvez um dia, cansado de rodar pelo mundo, volte a instalar-me nesta terra argentina e então, se não como morada definitiva, pelo menos como lugar de trânsito para outra concepção do mundo, visitarei novamente e habitarei a zona dos lagos das cordilheiras.

in Viagem pela América, Ernesto Che Guevara

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Adventismos do 7ºdia

Ao Sábado, "tem a palavra o Senhor".
A homilia de hoje pois então:

Jeff Buckley - Yard of blonde girls (live)


Through the yard, through the yard of blonde girls
through the river and the sea
gold sharks glittering
a tree of white breaks the earth
the streets where lola played
very sexy, very sexy

okay, okay
fear, we may come

so run, run, run, run, run, run, run.


Assim repetida umas boas 4 vezes.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Decussação

The National - So far around the bend
(da colectânea Dark was the night)



Nobody knows where you are living
Nobody knows where you are
You're so far around the bend.


Assim num instante, entre a vascularização do tronco cerebral e seus AVCs, no cansaço do esforço contínuo da percepção tridimensional.
Havia de se estudar Neurologia com um daqueles óculos 3D, penso às vezes.
Mais a velha benção da ignorância, sempre.

E em pleno síndrome de Wallenberg, a decussação do meu pensamento.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O meu mundo e(´) a minha janela

«How often do you find the right person?»


Num cantinho da Fábrica Braço de Prata.

(KO)isas sem sentido (11)

O Carnaval.

Para mim, nem libação religiosa (quais "dias gordos"), nem palhaço, nem máscara de Veneza, "não obrigado" à folia extrema, quase sempre tudo contado na voz estridente de um narrador com sotaque do outro lado do Atlântico.

Pura obrigação de festejar seja lá o que for. Roça a estupidez maniqueísta do Reveillon (e porque não do Dia dos Namorados também, do dia da Mãe, do Pai, do Avô, da Avó- ai não, é só um para os dois?!!, da Criança, de Plantar Árvores, da Paz no mundo, da Música, de Pisar as Listas Brancas das Passadeiras ou de Lambermos todos nós 20 selos cada um para enviarmos em correio registado e com aviso de entrega para a Antárctica?).
Excepção feita aos caretos de Podence "que-os gajos-parece-que-correm-que-sa-fartam", talvez por isso goste é do Natal que como todos nós sabemos "é quando um gajo quiser". E as iluminações vão de finais de Outubro a Janeiro. Ora há de haver ali um santo dia em que um tipo acorda com o dito espírito.
No Natal sim, aí é que há tolerância. Já o Reveillon ou o Carnaval não (não me venham com essa). Ou estás para isso ou então azar.

E mais: de samba (além da mais que evidente falta de jeito, quiçá genética desviante) já me bastam as danças do dia-a-dia.
Não obrigado.

(KO)isas (com) sentido (16)

Afinal de contas, de que é feito o "cheiro das casas" ?
(mas quem é que já não reparou nisto?)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

(KO)isas sem sentido (10)

Diz que é uma espécie de afasia.

Eu: Sr. Hermínio, então bem disposto?
Sr. Hermínio: Pois sim, de modo que...ainda bem que eles «mastra», amanhã...«porterti»...hmm, hmmm. Pois, ainda não «rurtipo».

Isto assim há já umas boas 2 semanas.
Prezam-me outras melhoras, noutros aspectos.
Há coisas que tomamos tão nossas que quando as perdemos nem contadas. Só vistas (e revistas).

domingo, 22 de fevereiro de 2009

World Press Photo 2008

Aqui.
Vale bem a pena.

Das minhas favoritas:




Dos diários dos outros

«A lua cheia recorta-se sobre o mar e cobre as ondas de reflexos prateados. Sentados numa duna, miramos o contínuo vaivém com diferentes estados de espírito: para mim, o mar sempre foi um confidente, um amigo que absorve tudo o que lhe contam sem revelar nunca o segredo confiado e que dá o melhor dos conselhos: um ruído cujo significado cada um interpreta como pode...»

in Viagem pela América, Ernesto Che Guevara

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Uma imagem vale mais do que mil covers

O cover da Last Goodbye do mestre Buckley feito pela Scarlett Johansson...

Louva-se o bom gosto musical da menina, pouco mais.
Ainda não me convenceram os seus dotes musicais.
E ao que parece não sou o único com esta opinião.

Quanto à minha avaliação da sua nova aventura musical, e socorrendo-me das imagens que ela própria já nos proporcionou no grande ecrã...

Ensaio sobre a cegueira

Manic Street Preachers - Motorcycle emptiness
(Generation Terrorists, 1992)



Culture sucks down words
Itemise loathing and feed yourself smiles
Organise your safe tribal war
Hurt maim kill and enslave the ghetto

Each day living out a lie
Life sold cheaply forever, ever, ever

Under neon loneliness motorcycle emptiness
Under neon loneliness motorcycle emptiness

Life lies a slow suicide
Orthodox dreams and symbolic myths
From feudal serf to spender
This wonderful world of purchase power

Just like lungs sucking on air
Survivals natural as sorrow, sorrow, sorrow

Under neon loneliness motorcycle emptiness
Under neon loneliness motorcycle emptiness

All we want from you are the kicks you´ve given us
All we want from you are the kicks you´ve given us
All we want from you are the kicks you´ve given us
All we want from you are the kicks you´ve given us

Under neon loneliness motorcycle emptiness
Under neon loneliness motorcycle emptiness

Drive away and its the same
Everywhere death row, everyones a victim
Your joys are counterfeit
This happiness corrupt political shit

Living life like a comatose
Ego loaded and swallow, swallow, swallow

Under neon loneliness motorcycle emptiness
Under neon loneliness motorcycle emptiness
Under neon loneliness motorcycle emptiness
Under neon loneliness everlasting nothingness



Relembrado aos meus ouvidos, numa vaga sensação familiar de estranheza doce.

("Como podemos sentir saudades de tempos que não vivemos?",
ecoando em mim.
Boa pergunta.)

Ao acordar um Sábado destes. Via MTVtwo.
Uma grande música e uma letra misteriosa.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Queres tu lá ver...

...que voltaram os Fleet Foxes?

Fleet Foxes - Mykonos, Sun Giant EP

Cloridrato de propranolol

Voltar a Lisboa por uns dias.
Mesmos caminhos, mesmos horários mas sentido inverso.
Novo estatuto: visitante.
Roça a crise conversiva, verdadeiro poço de dúvidas existenciais.

Ainda Darwin

A rendição/redenção dos últimos cépticos.
Ou a crónica de Pedro Mexia no Público de ontem.

Citando os mestres

«O prazer que experimentamos em ocasiões como esta desorienta a mente- se o olhar seguir o voo duma borboleta garrida fica entretanto preso numa qualquer árvore ou fruto estranhos, se observarmos um insecto a flor em que ele repousa consegue que dele nos esqueçamos...a mente é um caos de deslumbramento.»


Charles Darwin,
algures numa parede de A Evolução de Darwin

na F. Calouse Gulbenkian

«Havias me ouvir tocar piano» (2)

Michael Nyman - Debbie

Para ouvir aqui.
Se te restassem apenas 8 minutos e 16 segundos, o que farias?
Eis a minha sugestão.

Uma das 9 canções do polémico filme 9 Songs de Michael Winterbottom (2004).

Do you feel like 90s?

The Lightning seeds - Lucky you

Entre : linhas (a consequência das coisas)

Chegar ao fim de Os Cus de Judas de A.L.A. e não partilharmos daquela revolta. Deve ser impossível. Lógica causa-efeito, axiomático, pura consequência. De mestre fantocheiro.
O Chiúme, Ninda, a Baixa do Cassanje e a África que não conheço senão de relatos, de histórias de outros. Tudo no meu sofá, e eu de livro numa mão e de G3 na outra às vezes. «Cabrões».
E momentos há em quase é preciso tomar qualquer coisa para os nervos, tal o estado da «cousa».
(Foram mesmo quantos litros de chá?)

Irascível, revoltante, genial, sublime, fel mas também doce e terno, às vezes.
Como que, sem dar por nós, ali estamos em pleno campo de batalha, no acampamento rodeado de arame (brilhante a capa da edição de bolso do Grupo Leya- já agora, barato, pega-se bem e leva-se para qualquer lado- comprem!), soldado raso e porque não médico de campanha (a personagem em questão também com vinte e poucos), ocupado de cotos e tudo o mais que possa restar de minas antipessoais, dia fora.
(e eu a cantarolar Walking Away na Pequena Cirurgia do HSM...que raio de existência esta?).

E aquele pensamento angustiante e insistente, cravejado a rajada de metralhadora com que um tipo se deita: «caralho caralho caralho caralho, foda-se».
Se me lixassem por estes dias à grande, era gajo para debitar aquilo de enfiada.
O expoente máximo da genialidade do autor. Debaixo da sua caneta, sob o controlo da sua mão, sublimes, quasi-poesia, atribuindo a tamanhas palavras uma altivez que não pode constar do vulgar prontuário do calão.

Onde está o substracto da vida? a base de tudo? Onde te fazes? Que provas?
(E a quanto é que estão mesmo as olheiras, as cicatrizes, os quilos a mais, a voz tornada grave pela vida?)

«Em Mangando e Marimbanguengo, vi a miséria e a maldade da guerra, a inutilidade da guerra nos olhos de pássaros feridos dos militares, no seu desencorajamento e no seu abandono, o alferes em calções espojado pela mesa, cães vadios a lamberem restos na parada, a bandeira pendente do seu mastro idêntica a um pénis sem força, vi homens de vinte anos sentados à sombra, em silêncio, como os velhos nos parques, e disse ao furriel enfermeiro, que desinfectava o joelho com tintura, É impossível que um dia destes não tenhamos para aqui uma merdósia qualquer, porque, sabe como é, quando homens de vintes anos se sentam assim à sombra, num tão completo desamparo, algo de inesperado, e estranho, e trágico acontece sempre, até que me vieram informar do rádio Um tipo deu um tiro em Mangando, e eu corri para o carro onde a escolta me aguardava a aprontar-se ainda, e seguimos aos saltos para o norte pela picada que a chuva destruíra

E há uns dias, desarmado da minha verde espada, em qualquer coisa como isto: «é tudo muito lindo, também eu gosto muito de tudo isso mas é quando um tipo tem a barriga cheia, sabes? Eu que já passei fome vos garanto que quando a barriga está vazia, não há moral, política, filosofia, música, etc que nos valha. Nada disso nos interessa, vos garanto.»

«Já lhe aconteceu observar-se quando está sozinha e os gestos se atrapalham numa desarmonia órfã, os olhos procuram no seu reflexo uma companhia impossível, a gravata de bolas nos confere o aspecto derisório de um palhaço pobre a representar o seu número sem graça para um circo vazio?»
Já.
Menino de estantes, voyeur sequioso do sofrimento alheio, orgasmonauta da sublimação dos outros, frustrado, parasita. Um-quase-nada-ao-lado do menino do pólo branco que todos os domingos monta o seu Lucky Star para regozijo do papá, não muito menos do que o comunista de barriga cheia lendo Trotsky no seu sofá de couro de 2000 contos. «Puta que vos pariu». A todos.


Por estes dias, admito que andei meio banzado com isto tudo.
Pequenino, muito pequenino. Sem vontade de escrever, disártrico. Rindo a espaços.
Que merda é esta que para aqui vomita um gajo às vezes blogs fora? Que merda é esta agora que para aqui escrevo? Tudo muito lindo, sim senhor. Comentários a isto e àquilo, tudo opina, tudo pensa...extraordinário. Que sei eu de política?- felizmente que não a comento, ando a pensar/procurar a frase que hei de esparramar no boletim de voto nas próximas eleições- mas vou lá, que sei eu daquilo que julgo estar habilitado a fazer? quem me habilitou? quem me habilita? que sei eu daquilo que gosto quando me apercebo que o pouco que um gajo vai apreciando é uma insignificância? De que gosto eu se amanhã o gosto é outro? Que treta é essa dos gostos mudarem de 7 em 7 anos? Onde estás tu daqui a 10 já agora? que sei eu da Vida?

«O que seria de nós, não é, se fossemos de facto felizes? Já imaginou como isso nos deixaria perplexos, desarmados, mirando ansiosamente em volta em busca de uma desgraça reconfortadora, como as crianças procuram os sorrisos da família numa festa de colégio? Viu por acaso como nos assustamos se alguém, genuinamente, sem segundos pensamentos, se nos entrega, como não suportamos um afecto sincero, incondicional, sem exigência de troca?»

Regresso à normalidade interior, na certeza que há uma força motriz de muito do que se passa à nossa volta. Substracto, substracto.

«Não, a sério, a felicidade, esse estado difuso resultante da impossível convergência de paralelas de uma digestão sem azia com o egoísmo satisfeito e sem remorsos, continua a parecer-me, a mim, que pertenço à dolorosa classe dos inquietos tristes, eternamente à espera de uma explosão ou de um milagre, qualquer coisa de tão abstracto e estranho como a inocência, a justiça, a honra, conceitos grandiloquentes, profundos, e afinal vazios que a família, a escola, a catequese e o Estado me haviam solenemente impingido para melhor me domarem, para extinguirem, se assim me posso exprimir, no ovo, os meus desejos e protestos de revolta. O que os outros exigem de nós, entende, é que os não ponhamos em causa, não sacudamos as suas vidas miniaturiais calafetadas contra o desespero e a esperança, não quebremos os seus aquários de peixes surdos a flutuarem na água limosa do dia-a-dia, aclarada de viés pela lâmpada sonolenta do que chamamos virtude e que consiste apenas, se observada de perto, na ausência morna de ambições.»

Pois então que paro por uns tempos. Agora digiro- é certo, mas afigura-se-me que o próximo de A.L.A. seja mesmo a "Morte de Carlos Gardel". Ando a saltitar, sem qualquer espécie de cronofilia entre as várias obras do autor. Conto que lá para 2010 tenha lido todos (ou quase todos). Assim espero.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Snapshots

O meu cacifo lá pelo hospital e a respectiva "etiqueta" de baptismo.
Ilustrada na figura do Nemo que para mim, por si só, já diz tudo.


5 anos.

«I´m not scared».

«No, I´m not» (a ranger os dentes e de olhos esbugalhados).

domingo, 8 de fevereiro de 2009

«Havias de me ouvir tocar piano»

Jamie Cullum - High and Dry (Radiohead cover)

«Pois então parece que os dias só dão para isto»

Shou Out Louds - Impossible



Let's not fall back to sleep like we used to, do you remember?

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

«I wonder how many people in this city»

Night Windows, Edward Hopper

I wonder how many people in this city
live in furnished rooms.
Late at night when I look out at the buildings
I swear I see a face in every window
looking back at me,
and when I turno away
I wonder how many go back to their desks
and write this down.


Leonard Cohen, The Spice-Box of Earth (1961)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Pura heresia

Tropeçar no blog do chefe.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Let´s play couples (2)

Stars - Your ex-girlfriend is dead

Let´s play couples (1)

The Magic Numbers - I see you, I see me

domingo, 25 de janeiro de 2009

Cinema fora de casa (cont.)


Vicky Cristina Barcelona, Woody Allen (2008)

Mas será que faz sol todo o Verão em Barcelona?
Delicioso.
Claramente, dos 5 filmes que mais gostei este ano
(fecho a época anual com a entrega dos óscares).
1h e tal a mostrar vidas, pessoas, tal qual elas são. E no fim, lá estão elas outra vez.

Cinema fora de casa

The Curious Case of Benjamin Button, David Fincher (2008)


"Along the way you bump into people who make a dent on your life.
Some people get struck by lightning.
Some are born to sit by a river.
Some have an ear for music.
Some are artists.
Some swim the English Channel.
Some know buttons.
Some know Shakespeare.
Some are mothers.
And some people can dance."

Com esta é que me...lixaste

Congresso. Eu mero ouvinte.
Minutos escassos da minha atenção. Penso que se discute a importância que pode ter o aterrar de um mosquito (qual amaragem...) sobre um pêlo do lombo de gato no dispertar de uma autêntica explosão supersónica.

Pergunta da audiência: Mas então o que pensa da importância das alterações patológicas documentadas neste estudo, sediadas no lobo temporal versus as que já conhecíamos classicamente descritas ao lobo occipital, na génese das alucinações auditivas presentes nesta doença?

Palestrante: Bem, para ser sincera, é tudo uma questão de networks. É isso. (...)


E eu feito 100% de atenção, juro que por momentos achei que não poderia haver melhor resposta (infelizmente não se ficou pela resposta seca como eu gostava).
De tal forma que penso aplicar este filão, verdadeira fórmula maravilhosa numa ou outra conversa de café que esteja a ser algo "enfadonha".

We will always...


...have uncle "Moz". (And Paris, of course).
E outras coisas que é sempre o mesmo filme todos os Domingos, revista a semana que passou.

Num claro recurso aos clássicos (contínua e imperceptivelmente revitalizados na nossa mente comum).
Jogo seguro, apostas sólidas (como se diz na gíria futebolística mesmo?) no começo de jogo. Nada de entradas precipitadas (?!). Mas de pressing alto que é o que a malta curte agora.
Deixando espaço para a verborreia de um discurso incompreensível, fluente. Fintinha, jogo de pé, poesia, BD. De uma afasia que se quer meramente sensorial (não entendo porcaria nenhuma do que os doentes me dizem às vezes e eu a pensar que eles podem estar a cantar a nelhor música da vida deles...e quem sabe da minha). Êxtase última dos sentidos.


Até da capa do novo cd de Morrissey, paradoxalmente, gosto cada vez mais por estes dias. Sim, daquela pirosice pegada.


Ando a matutar nisto de há um tempo para cá. - Há a pirosice, daquelas coisas que tropeçamos por aí, e há a pirosice com estilo, sublimação última da época em que vivemos em que até o bom se mediocriza do dia para a noite, se estupidifica, tal é a nossa falta de cuidado/atenção e dispersão. Demasiada merda, demasiados estímulos, demasiada papa Cerelac pronta a degustar e a transitar organismo fora. Elogio do 100% descartável, tetra-pak que nem amigo do ambiente é. Fere a vista: tudo placares a piscar, vem já tudo sinapsado dêem-me antes a matéria bruta. Árvore grande, de casca grossa que eu faço o buraco para ouvir o verdadeiro som que vem de lá dentro. Demasiado cor de rosa, verde, amarelo (a única coisa que gosto é que a cor do símbolo das sms que chegam), laranja ranhoso, azul bebé que dizem que é moda agora (tomem lá então este parágrafo todo...e viva a moda), verde daquele que um gajo nem sabe dizer se verde ou azul (e que dá direito a discussão de café...). E tudo a piscar num mundo de amblíopes, tudo a flipar, bla bla bla, ping ping ping, blip blip blip.
Havíamos de voltar ao preto e branco nem que por minutos apenas fosse. À essência. Como podemos processar tanta porcaria? Deixem-nos em paz. "We must all focus", não foi o que disse o Obama?

Quiçá o refinado do bom gosto, quando o bom gosto se estraga é deste menu que o tio Moz nos traz. Placar branquinho ao fundo. Dancinha de parolo. Cães fofinhos, o mesmo cliché de sempre. The same formule (de quem a sabe de cor) num pacote deformado que é para chamar a atenção (a simetria cega-me). Como se o que nos restasse por estes dias fosse ser piroso com muito estilo. Já tudo foi inventado, já tudo foi destruído.

Fosse eu artista (felizmente que não o sou) e já tinha espetado um tiro nos miolos, penso eu às vezes.


Tanto..., tanto..., tanto não sei quê e ainda assim não nos sentimos senhores de nada (e eu a pensar na estante de cds e nas pastas de mp3 que tenho para ouvir...órfãos de sentidos...palavra de honra que passo mal quando penso que morro e isto assim entregue a nem sei quem). Longe de satisfeitos com pouco, fatigamo-nos com muito. E continuamos.


É. E dá vontade de um gajo embalar as trouxas, "dar às de Vilas Diogo" (adoro esta expressão...) e sem dar por ela, capaz de um gajo "se amandar" assim para Paris também (só porque nem sei onde raio Vilas Diogo fica. Paris é bem mais fácil, ali ao virar da esquina).

Braços, pernas e tudo à mistura. Quem sabe a Torre Eiffel assim fofa- não que nem pedras e aço- mas como veludo vermelho (porque é que sempre que imagino veludo me vem à cabeça a cor vermelha?). Mas daquele que até cause dermatite de tão estupidamente estranho e liso à cutis. Êxtase última dos sentidos.
Oh sim. Porra, isso é que era.


Morrissey, I´m throwing my arms around Paris.




I’m throwing my arms
Around Paris
because
Only stone and steel accept my love!!!!!!

Recomeçando

Retoma de sinal. Lamentamos os problemas técnicos.
"Houston, problem solved. I think we no longer have a problem here, faithfully".

Quem surgiu primeiro: o post e o seu esboço ou o blog?
Nem sei.

Ora vamos lá então.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Últimas badaladas por Lx (12)

.

%#&"!!!!%$#~««#$%&!!!!!!!

À última badalada, o blogger encravou.



Aguardam-se novos efeitos. Por aí. Por aqui.

As últimas badaladas por Lx (11)

Os últimos snapshots.

Parque das Nações, Reveillon 2008.

As últimas badaladas por Lx (10)

Dos rituais de passagem.

Do Reveillon.
Passado que está o boost de alegria natalícia em mim, desfaço-me em estúpidos balanços que nunca concluo. Ando ao contrário dos outros, despeço-me das multidões ao virar do 25 de Dezembro. Não percebo sequer alguma folia efémera dos festejos dos outros, quando em mim só tenho vontade de ver fogos de artifício. Mas daqueles de lágrima. Que sobem rápido ao céu e caem vagarosamente. Que duram. Que parecem chorar mas de alegria. E levar comigo aquela meia dúzia de pessoas certas e noite fora, quebrando pseudo-cansaços, partilharmos sorrisos sinceros de quem festeja qualquer coisa junta: estar cá. Passar o ano com quem queremos que veja a passar mais anos por nós.

E quase sempre o mesmo desejo adolescente de há uns anos para cá: cantar até de madrugada, partilhar histórias estupidamente brilhantes e simples, sorrir até faltar o ar. Transcendermo-nos. Há um ano, imbuídos em sonhos comuns, acho que foi tal e qual assim. O melhor Reveillon de sempre.


Da Vida.
Não creio em grandes mudanças ao virar de ano. Não faço listas de objectivos. Se alguma vez as fiz sequer, nunca as cumpri. Dos que tenho cumprido nem preciso de apontar. Doutros vou-me lembrando pelo caminho ao longo do ano. As grandes mudanças não se dão de um dia para outro, não são coisas de que nos apercebamos. Quando se podem chamar de tal, tantas vezes já fomos "achocalhados" que já nem sabemos o que mudou. Ou antes, mudou quase tudo, até nós mudámos a mudança. E dizemos que foi sempre assim, que "já nem me lembro", sorrimos e preocupamo-nos antes com as coisas que queríamos mesmo que mudassem de hoje para amanhã. Sempre o mesmo. Com essas é que vivemos, essas é que carregamos estupidamente connosco.

Com 25 anos, não tenho vontades de Mudar Mundos, apenas de os viver, ser positivamente mudado e ajudar positivamente a mudar.


Dos efeitos.
Acabados os de Lx (ou os com pano de fundo Lx), a certeza que outros virão. Em mim, nos outros que queiram partilhar os seus comigo ou ser effected pelos de cá.

As últimas badaladas por Lx (9)

Ainda a propósito do Ano Novo (ou talvez não só):

Recomeça….

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…


Miguel Torga

As últimas badaladas por Lx (8+1/3)

E esta música (podiam ser outras mais...), retirada algures dum blog que visito regularmente, e que é assim como quem diz, "do caneco". Viciante.
Se a boa disposição tivesse um botão, então o play aí em cima deste vídeo era o on. Então, vá.

The Coral - Dreaming of you

As últimas badaladas por Lx (8)

Nunca voltes a um lugar onde foste feliz.

Será mesmo verdade?

As últimas badaladas por Lx (7)

Pronto, eu confesso: quando faço para mim essa treta dos desejos (nem me lembro quando foi a última vez), chego sempre ao último e peço eu quero poder pedir mais 30 desejos.

Epá, é justo.
Só 12 é uma perfeita idiotice.
Onde enfiava eu aquele da paz no mundo que até as misses pedem?

As últimas badaladas por Lx (6)

Mergulhado na amálgama das sensações que passam de 2008 para 2009, no sei lá que passou de cada ano e que tentamos recordar sempre que olhamos para o fogo de artifício no céu, esqueci-me de pedir os míticos 12 desejos, muito menos engoli as 12 custosas passas da praxe (valha-me isso ao menos).

Mas sei que houve ali algures um momento em que senti que algo de novo em mim estaria para começar mesmo. E esqueci tudo e todos, imaginei-me bem sozinho e sorri para mim, assim como quem diz ecoando cá dentro: ok, vamos lá então a mais uma volta?! :)

Últimas badaladas por Lx (5)

Nem por acaso, a minha (bem, é tão difícil dizer isto, uma das- mas por certa a que mais rapidamente me vem à cabeça) música favorita, a banda sonora dos últimos adeus.

Last Goodbye, Jeff Buckley.

Well, the bells out in the church tower chime
Burning clues into this heart of mine
Thinking so hard on her soft eyes and the memory
Of her sighs that, "It's over...it's over...

Daqui (enquanto faço aquele gesto de bater no peito com a mão direita).

Últimas badaladas por Lx (4)

Cenas que perduram (7)

E por falar no filme:


Elizabethtown, Cameron Crowe (2005)

Drew Baylor: Because we have a moment here, let me tell you that I have recently become a secret connoisseur of 'last looks'. You know the way people look at you when they believe it's for the last time? I've started collecting these looks.

Últimas badaladas por Lx (3)

Enquanto escrevia estas 12 badaladas, fiquei a pensar se um dia ainda vou descobrir que aquilo para que tenho mesmo jeito são os elogios fúnebres.

Will
it be?



E é mais isto, esta músiquinha do Nick Cave que é tão feia tão feia (e um videoclip fraquinho), que resolvi pô-la aqui.
Por isso, não precisam de agradecer e nem muito menos a ouçam. Está "porqu´olhem", ninguém lhe pega. Peguei eu.

Nick Cave - Into my arms
(diz que é do albúm The Boatman´s call...)

Últimas badaladas por Lx (2)

...

Administrativo: É verdade, muitos dos seus colegas pedem para ficar com os cartões.

Eu: Pois, eu entendo-os. É um recuerdo. Deixe-me só tirar uma foto então, espere lá.

Administrativo: Pois, mas não podem mesmo ficar com eles. Vão ser reutilizados para outras pessoas.

Eu: Hmmm, a sério? Agrada-me essa ideia, saber que uma parte de mim vai continuar a andar por aí.

Administrativo: É, são as novos cartões com chip, sabe?

Eu: (noutro mundo...) Pois, pois...os chips :)

Eu (regressado a este mundo): Então vá, obrigado por tudo, bom ano e felicidades.

Administrativo: Bom Ano para si também e felicidades.

Últimas badaladas por Lx (1)

Diz que estava assim o HSM aquando da minha despedida (foto tirada do parque estacionamento- não tenham medo por mais assustadora que pareça).

Fica a imagem para a minha posteridade, tirada via telemóvel.
Ainda assim, dizem por aí que as verdadeiras recordações (vêm-me sempre à mente aquele gesto "delico-mágico" da Kirsten Dunst, no filme Elizabethtown, acompanhado do "tlic-tlic" de quem tira uma foto) são gravadas na mente a preto e branco.

Na minha, quem sabe já dessaturei esta foto. Ou então estará ainda em pleno processo de revelação, num "banho de vermelhos". E até que, nem sei bem porquê, gosto desta última ideia.

sábado, 27 de dezembro de 2008

"Early morning" (à la abrupte) jazzs

Divinal.

Queres tu lá ver que vem na mega-colectânea "Vocal Jazz", 60 músiquinhas por 19 euros?
É, é gajo para isso, sim senhor.
Isto e muito mais.
Diz que faz muito mal aos ouvidos e ao que está entre eles
.

Sara Lazarus - Morning

«Penso nos anos como este que não existem para mim»

E na hora da despedida, o balanço. (Eu) balanço. Lugar comum.
Sabem aquela estranha sensação de podermos ter vivido o melhor ano da nossa vida?
Pois então, talvez seja isso (ainda assim, espero eu que não seja).


As descobertas, as existências ainda redomizadas, as experiências em tubo de ensaio. A comiseração do egoísmo, só possível com 24-25 anos. Antropocentrismo, como se o mundo pudesse andar à nossa volta por uns tempos. Quem sabe às vezes tenha de ser mesmo assim. Antes isso que uma vida inteira de engano para nos apercebermos mais tarde do movimento erróneo de tudo.

E a cidade. A cidade que não é de ninguém mas de todos, património comum. A cidade que é sim de quem lhe dá o devido valor, de quem fica e porque não (?) de quem a ela volta.

Os Dr. que ainda mal o são, de aspecto imberbe e de dúvidas patentes no tremelique das vozes, no nistagmo nervoso do olhar. Os medos. Os bips, os plocks, os sons esquisitos, mais os alarmes e traçados ECG dos monitores (que houve alturas em que me apeteceu mandar tudo para o caraças!!!). As poucas certezas que se vão ganhando progressivamente. Mais os tiques, os maneirismos.

As macas empoleiradas, as noites de banco sem dormir, os cafés às 4 da manhã (quase que vale a pena ficar acordado para os saborear), os "ais" e o "uis" dos mais variados timbres e tons. As piadas sobre a vida e a morte, elogio último da primeira.

Os novos amigos, os companheiros (de casa e já de sempre- obrigado, das salas de trabalho, de turno de banco, de almoço, de cacifo). Os novos fascínios, as novas admirações. "Ele é sempre assim", dizem. Os novos mestres. Os que por mais que "tentassem", nunca o chegariam a ser. E os que, às vezes por 5 minutos apenas, se tornaram em tal para sempre.
Isto tudo e mais os doentes (os verdadeiramente doentes), ali e em qualquer outra parte, ainda a razão primordial.


Entre:linhas (mais)

Na hora da despedida do HSM, a crónica mais improvável, quiçá das menos brilhantes do livro de crónicas de Pedro Mexia.
Ainda assim, e por marcar este preciso momento, a que escolhi para pôr aqui.


Santa Maria

O Hospital de Santa Maria (HSM), em Lisboa, não é exactamente um elefante branco, visto que não se trata de um edifício inútil. Eu penso nele mais como uma grande baleia branca (como no romance de Melville) ou um grande peixe que nos engole (como que engoliu Jonas ou Pinóquio). É um gigante no meio da cidade, que mesmo quem conhece não conhece inteiramente. Há uns anos passei uma «temporada no inferno» nesse gigantesco estaleiro. E ainda hoje é das minhas memórias mais vívidas, embora às vezes bastante enevoada pelo sofrimento alheio e pelos meandros dos intermináveis corredores.
Recordei de novo tudo isto por causa de uma reportagem publicada na revista Visão e assinada por Ricardo Fonseca. Grande parte do fascínio do texto está desde logo na simples enumeração numérica. O hospital de Santa Maria é uma verdadeira cidade visível e invisível. Cento e trinta mil metros quadrados, 11 pisos, 1109 camas, mais de cinco mil funcionários, 1118 médicos e 1595 enfermeiros, 18 mil pessoas que passam diariamente pelo conjunto de edifícios. Além das várias secções correspondentes às especialidades, há todo um mundo oculto, as catacumbas, que mesmo os seguranças evitam e onde às vezes se descobre gente vinda de lado nenhum. É esse lado mastodôntico e tenebroso que ainda me assombra. Uma vez atravessei o hospital para uns exames e fui vendo essas 4500 portas (pensando eu que chegava ou não chegava nunca) e 5400 janelas (que tinham ramagens e pássaros e um alto negrume noite dentro). Os corredores gigantescos . Os elevadores, apenas 16, mas cheios e pesados. E depois essa espantosa fauna de estagiários e alunos de medicina e mães chorosas e o homem cigano que se esvaiu em sangue na cama em frente da minha. E o jovem médico que discutiu Nietzsche comigo. A enfermeira de seios muito redondos e cabelos muito pretos que parecia quase feliz no meio da tristeza que no fundo não aceitava. O director que passava revista às tropas com aforismos. As visitas acabrunhadas. O meu tempo que ainda não tinha chegado.
O Hospital de Santa Maria é um edifício alemão construído no início dos anos cinquenta. É ainda hoje o maior hospital português. Depois desse episódio ainda nos tempos de faculdade nunca lá mais estive, mas não esqueço essa sua enorme fachada degradada, umas traseiras quase soviéticas de cimento e fissuras e tinta estalada, e eu achando que aquilo parecia uma imensa metáfora concentracionária mas muito concreta nas vidas que a enxameavam. No hospital se nasce (há uma maternidade) e se morre (há uma morgue). E tudo o mais (que não é muito) que entre nascimento e passamento acontece, incluindo almoços e defecações. Talvez tenha sido isso que também me chocou na altura: imaginar que ali dentro estava tudo, que fora daquele sítio tudo eram ilusões e distracções, porque nessa baleia branca estava o que somos. Somos neurologia, cardiologia, coisas assim. Pedaços mal colados e mal empregados.E uma vida toda acontece entre aquelas paredes que nunca acabam, mesmo quando um de nós acaba. Leio na reportagem que no hospital usam a expressão «levantar voo» como eufemismo administrativo da morte de algum inquilino. É mesmo isso que queremos, deitados numa cama, quando vemos uma avezinha que se aventura, saltitante, empoleirada na árvore que espreita os pacientes. Queremos levantar voo, acima do cimento e da neurologia, acima deste grande hospital em que vivemos. E isso mais tarde ou mais cedo acontece. O hospital (o que agradeço) cuida para que seja mais tarde.

Entre:linhas

Como poderei saber se não existe uma vida após esta?...Não, não estou certo disso. Pelo simples facto de o mundo existir, os limites da improbabilidade já foram ultrapassados. Percebes o que pretendo dizer com isto? Tão surpreendido estou com este mundo, que não teria capacidade para me deixar surpreender pela existência de outro mundo eventual.

in A rapariga das laranjas, Jostein Gaarder

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Uma imagem e uma música

Death cab for cutie - Transatlanticism

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Cenas que perduram (6)

«Le parole sono importanti.»
in Palombella Rossa, Nanni Moretti

Não me falte o fôlego e amanhã adquiro a distinta caixinha do mestre.
(quantos são mesmo, 4 ou 5?)

[Na Catedral habitual de consumo, que senão me falha a memória já vou tendo 2 vales por distintas participações no capital da mesma. E aí estou eu a reaplicá-los, lindo menino, filho pródigo do consumo desenfreado. Sim, eu sei, tenho noção e consciência (auto-domínio, nem sempre). Nem é preciso agradecerem, agradeço eu.
Como gosto da vertente existencialista da coisa, visualizo estantes e imagino-me a enchê-las. É quase como que decoração de interiores. Sim, é isso. Hmmm...

A propósito, há uns dias, numa conversa com amigos, circunstâncias que vida nos tem "imposto", o critério de escolha de local para viver: consensual, ter uma Fnac. Não estarei a exagerar se disser que chegaria a equacionar morar em Favaios, se Favaios tivesse Fnac. Inclusivamente, até se desculparia a mítica e ligeira falta de articulação INEM-Bombeiros daquela localidade. Nem muito menos (para que não haja bocas foleiras e porque só agora me lembrei disso) pesaria a favor o mítico favaíto.]

Voltando ao assunto. Ok, amanhã: este que me foi emprestado mas, se tudo correr bem, também já terei um exemplar.

Epá...como se diz, mesmo? ahhh, obrigado.

E isto, bem isto...isto (quais iogurtes...), isto é puuuuuuuraaaaa delíciiiiaaaaa:
[muito mais do que uma cena que perdura...são várias cenas...
e o I´m on fire do Bruce Springsteen de fundo? ... (sim, é isso: reticências)
não vejam que hão de ser excomungados e queimados vivos numa fogueira regada a crude a 35€ o barril]

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

«Now, that´s what I call Christmas»

Amazing grace! how sweet the sound,
That saved a wretch like me!
I once was lost but know I´m found,
Was blind but now I see

It was grace that taught my heart to fear,
And grace my fears relieved
How precious did that grace appear
The hour I first believed!



Ruas fora, noite dentro, ao som de Sufjan Stevens.
Ainda há motivos para acreditar no Pai Natal, seja lá o que isso for.

sábado, 20 de dezembro de 2008

(KO)isas (com) sentido (16)

Na hora do último adeus, desejei-lhe um "bom fim-de-semana", na esperança que, feitos dois dias, o Sábado fosse da doce e pueril recordação e então sim um Domingo de dura percepção da realidade.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Entre: linhas


A partilhar brevemente, uma ou outra crónica, por aqui.
Para já, deleito-me no egoísmo da minha leitura.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Cold December

Do elogio do frio, do calor que só pode vir da alma, espalhando-se deliciosamente, sabe-se lá vindo de onde, até à pele. Mais o cachecol, o gorro e os dedos quentes, quando tal parece missão impossível.
E talvez por isso, ele não há santo Dezembro em que, de há 2-3 aninhos para cá, eu não acorde uns tantos dias daquele mês com estas palavras na minha cabeça:

All the birds are heading down south
but you're staying up north you say

Always.


Matt Costa - Cold December

(KO)isas (com) sentido (15)

Se o Cristiano não fosse futebolista profissional, poderia ter-se perdido.

Dolores Ribeiro, mãe de Cristiano Ronaldo, Correio da Manhã, 08.12.2008


Acrescento:
1. Por trás de um grande (?!) homem, está sempre uma grande mulher.
(Ou pelo menos, uma sábia mulher.)

2. O amor de mãe (e a sua sinceridade) é mais forte que uma casa.

(KO)isas sem sentido (9)

No metro, um tipo de seus 30-40 anos, ar másculo, ostentando uma mala a tiracolo lilás, onde se podia ler: Levitra.
Fiquei a pensar: a ignorância é uma benção. Ou talvez não. Será?

domingo, 14 de dezembro de 2008

Até que a vista nos doa (15)

Charlize Theron

Sem olhar a meios.
As últimas convidadas por Lx.
Primeiro, as loiras: a "monstra" sagrada Charlize.
E também ela a fazer recordar o tempo que nunca pára...grrr.
E o pormenor de usar o relógio na mão direita, ao alcance de poucos.

E perto do terminus, Ele disse:

193 posts após, depois de 329 dias, os Efeitos por Lx estão, por assim dizer, à beira do fim.

Liquidação total, produtos de luxo à solta pelos cantos, empilhados como roupa à moda da Zara, fogo de artíficio incluído.
Vale tudo para queimar os últimos cartuchos. Em contra-relógio, rendido aos últimos argumentos verdadeiramente cosmopolitas, entregue ao vil pecado da cidade grande, sem meias medidas, "não há pai" para os últimos dias. C'est-à-dire, à grande.

Raios. Onde estava mesmo o "botãozinho" do slow motion ?

(KO)isas (com) sentido (14)

Eu confesso: estive a pensar e cheguei à brilhante conclusão que dificilmente posso um dia vir a ser grande amigo de alguém que não gosta/não conhece The Smiths. Quem viveu os 80s e não "capisca" de Smiths só pode ser um enviado para espionagem oriundo de outro planeta. Cuidado. E só em casos extremos se aceita a extrema falta de atenção como desculpa. Do género: "estive em coma profundo".
É que há merdas que são toleráveis: vícios estranhos, hábitos ainda mais, mentiras, ver as telenovelas da TVi, clubites, falar com a boca cheia, choques ideológicos. Mau cheiro até.
Mas isso, isso não.


Aqui fica então para os Meus.
E aquela dança do Morrissey? que orgulho.

The Smiths - The boy with the thorn in his side
(no original do que postei por aqui há uns dias)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Ainda os "casos notáveis"

O melhor da blogosfera é poder encontrar volta e meia tipos que escrevem com esta criatividade.
E saber que não tenho de pagar 18,90 ou quaquer coisa assim mais 90 cêntimos (só para me venderam a ilusão que não custam mais 1 euro do que a casa das unidades marca). Nem muito menos tenho dislumbramentos com descontos de 10% sobre o preço do editor. Obrigado, mas não preciso. Na net há à borla.
Aliás, este blog, dúvido sequer que passasse pelos editores por aí. Eu confesso, volta e meia sou assíduo. Tudo, as mil e uma ofensas ao Cláudio Ramos também. No meio daquelas "patacoadas", sei que há qualquer coisa de brilhante, juvenal e totalmente anormal.

Tenho dito.
E este ao que parece é sobre o Natal.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

(KO)isas (com) sentido (13)

E depois tenho os dias em que me divirto a ensaiar despedidas.
E ainda assim, paro e penso que os dias são mas é feitos de descobertas. Pois que sempre que digo adeus acabo por descobrir qualquer coisa de estupidamente novo em mim.
Porquê?

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

«Il faut que jeunesse se passe»

Jeff Buckley - I want someone badly



Now I want someone badly
got a girl here tonight
wants someone new
someone new
a little cry wants someone badly
I wanna know if this is a bad lease on me

I want to know
I want to know
am I sure that I heard you right
I want to know
if you're leaving just do it tonight

now I want someone badly
to burn in here with me
but listen baby
cause I cry all over madly
don't do anything do it for/with me

ooh I wanna know
am I sure that I have your love
I wanna know
if you're leaving just make sure it's right

now I want someone badly
could it be true
that someone is you



Nota:
Para ouvir até calcificar o martelo (do ouvido médio...) de tanto bater na bigorna (coitada...).
Então aí sim, podemos parar.
Diz quem sabe que se ouve um zumbido. Confirmo.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Serotonin killers

Dei por mim a pensar que hoje talvez eu seja uma vítima dessa coisa estúpida que é a dependência serotoninérgica.

E o estranho é que, logo hoje, em que o Benfica espetou 6 e não ganhava por tantos já lá vão muitos aninhos. Nem isso me chegou. Ainda pensei "embuchar" 3 kgs de chocolate de avelãs mas não achei razoável (nem muito menos dispunha de tal manjar em casa).

Eis que senão surge o anestésico ideal: lembrei-me que amanhã, vulgo "feriadinho" para o comum dos mortais e 2º fim-de-semana prolongado (no meu caso nem os cheirei...), estou de "banking" das 8-20h.
Que delícia. Esboçei um belo sorriso amarelo e nem me mexi.

Cenas que perduram (5)

Vanilla Sky, Cameron Crowe (2001)

Dr. McCabe: My favorite Beatle was once John. Now it's... Paul.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

«I can’t stay home at night»

Porque há qualquer coisa de imensamente adolescente nas Sextas-feiras.

Nada Surf - No quick fix

Palavras para quê?

A árvore a piscar e o presépio, ei-los.
O carrinho de enfermagem mais as botijas de O2. Lindo.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

(KO)isas (com) sentido (12)

Esfolem-me se tiver a ter os primeiros sinais de facciosismo.
Mas haverá imagem médica mais bonita que esta?
(...detive-me eu hoje a pensar perante uma série de ressonâncias crânio-encefálicas).

Dizem que com a chuva vem a libertação

Hoje à saída do hospital.
Céu cinzento, chuva miudinha mas persistente, capaz de molhar bem a malta desprevenida ou vagarosa.

Sou interpelado por um tipo negro (aliás, sou interpelado por um sorriso do tamanho das casas de um tipo negro) a trabalhar sorridente nas obras do parque de estacionamento.
Assim:

Ele: Ó chefe!
Eu: ?!
Ele: Se eu fosse o Cristiano Ronaldo andava à chuva? (sorriso)
Eu: Como?!
Ele: (sorriso) Se eu fosse o Cristiano Ronaldo andava à chuva? (sorriso)
Eu: ?!
Ele: (sorriso)
Eu: ...
(sorriso) Não, acho que não [agora que penso nisso].
FORÇA nisso, FORÇA nisso então!!!

(KO)isas (com) sentido (11)

É. A árvore de Natal e o presépio lá do Serviço.
Daquelas cenas inexplicáveis: enchem-me de qualquer coisa de muito bom sempre que passo pelo corredor.