segunda-feira, 13 de julho de 2009

Twitter: what are you doing?


Eu confesso que percebo os blogs (por razões óbvias).
Vejo os que quero, nem se perco tempo nos que não me interessam. Adiciono uns. Às vezes, apago e readiciono mais tarde até.
Tal e qual a minha relação com a TV, a rádio, assim me relaciono com a internet e seus recantos.
Em tudo isto, deixo sempre espaço para uma possível mudança de opinião/gosto com o simples passar do tempo.

Eu até que percebo alguma da piada do furor inicial que foram as redes sociais, hi5 e afins. Por menos interessante que um tipo seja, é sempre possível vender o "produto". Uns mais bem "empacotadinhos" que outros.
Aguçou as nossas capacidades inatas de auto-promoção, de reles comerciante do produto mais básico que possa existir: nós mesmos.


Mas o Twitter, as mensagens instantâneas de estado e semelhantes, soam-me única e exclusivamente ao culto estúpido do Momento. À partilha inusitada, ao jeito de de uma histriónica que sai à rua aos berros todo o santo dia. Louvados sejam os vizinhos.
Quem não conhece tais personagens?

Para que um momento seja digno de registo (pelo menos para terceiros), há uma santa qualidade que não lhe pode faltar: raridade, não menos relacionada com outros tantas: espetacularidade, dignidade do que é partilhável, susceptível de merecer a atenção de outros.
Tal qual uma sinédoque, vai-se priveligiando:
A página em vez do livro.
O acorde em vez da melodia.
O mero "bitaite" em vez do raciocínio.
O vector de embate, esquecendo a física global dos corpos.
O fácil.
O imediato.
A parte em vez do todo.

Vejamos: uma cena pode até ser muito boa mas não nos esqueçamos que para as juntar existem os realizadores. E inclusive, existem os bons e os maus. Como em tudo.
Parece que o mundo vai acabar amanhã. Diz qualquer coisa para a mamã e para o papá. Para o tio que está em França e que te está a ver através do Twitter.

Como se a vida fosse mesmo um palco (é-o, eu sei). Mas até que ponto a nossa sociabilidade não passará pela saudável abstenção dos dramas dos outros?

Vómito a vómito, uma sanita em que se está constantemente a debitar qualquer coisa para quem está do lado de cá.
Todos debitam, tudo pode ser debitado.
(Onde ficaram os diários que as pessoas tinham antigamente? E as chaves dos mesmos?)
E ainda bem que é sinal de liberdade, dirão alguns. E o saudável espaço entre aquelas, não se esgotará à medida que cada uma reclama cada vez mais espaço para si?

Sou pois incapaz de perceber o que leva as pessoas a tanto reportarem o que "fazem" minuto a minuto das suas vidas. Note-se bem: raras vezes se quer o que "pensam" naquele minuto.
E quem não o faz, terá uma vida menos interessante ou será menos merecedor da atenção dos restantes?
Salva-se a vertente pseudo-jornalística da coisa, o lado às vezes irrisoriamente útil da questão.

Todos temos um microfone na mão há muito, é sabido. Mas quantos de nós lhe saberemos pegar?
A informação foi, é e será sempre uma faca de dois gumes (lá está, e por falar nisso, ela é uma "faca de 2 legumes", já dizia o "passarinho-twitter" Jaime Pacheco).
«A menos» é sintomático de ignorância ou opressão, «a mais» é uma seca, ou melhor, autêntica inundação e salve-se quem ainda vai sabendo mandar umas braçadas.

Ora, para as saber mandar é preciso um dia ter aprendido a nadar. E nessa aprendizagem, não se passa do dia para a noite para a piscina olímpica.


E o Twitter: oferecer-lhe o Nobel da Paz como ouvi há dias é, claramente, vangloriá-lo por algo que as massas sempre foram fazendo (com ou sem Twitter): a mitificação (ou antes, mistificação) de qualquer coisa pelo bem que possa ter causado (no caso, a partilha das imagens dos recentes confrontos nas presidenciais iranianas) ou pelo mal (algo para o qual não estamos ainda muito alertados...ou para o qual não terá passado se quer tempo suficiente para que nos apercebamos).

Não será a nossa sanidade mental, social um bem precioso? até que ponto não se estará a transformar a comunicação, a própria linguagem- com sedes biológicas já bem identificadas, e com isto tudo, inevitavelmente, as relações entre os homens?
O processo está em curso, não há volta a dar-lhe, é certo.


Não que eu considere a minha vida insuficientemente interessante para que a possa descrever telegraficamente ao minuto (ok, admito que seja até...tem minutos em que não faço puto mesmo).
Diria antes que, em jeito meio empático (de nada!), pouco me interessa partilhar algumas coisas que me vão acontecendo, muito menos saber o que a maioria das pessoas fazem das suas vidas. (Salvam-se pois raras e honrosas excepções, algumas das quais em que sou apologista do recurso ao meio audio-visual mesmo...o séquito do bom "voyeurismo" é pois a meu ver parte da herança genética da humanidade.)

Como diz o ditado, ainda há ignorâncias que vão sendo uma bênção.
Ou talvez, como diz o outro, ainda haja coisas que devemos guardar para nós próprios. Única e exclusivamente.

Uma foto e uma música


I lost myself on a cool damp night
Gave myself in that misty light
Was hypnotized by a strange delight
Under a lilac tree
I made wine from the lilac tree
Put my heart in its recipe
It makes me see what I want to see...
And be what I want to be

When I think more than I want to think
Do things I never should do
I drink much more that I ought to drink
Because it brings me back you...

...

Listen to me, why is everything so hazy?
Isnt that she, or am I just going crazy, dear?

Lilac wine, I feel unready for my love...

«Esta noite as ruas são nossas»

Richard Hawley - Tonight the streets are ours



Nas noites de Verão.

Das "crises existencialistas"

Quantos seres distantes e distintos em variadas mansões do Universo estão a contemplar a mesma estrela neste preciso momento! A natureza e a vida humana são tão diversas como as nossas inúmeras constituições.
Quem saberá que perspectiva oferece a vida ao outro? Poderia haver milagre maior do que podermos ver através dos olhos de outrem por instantes?
Deveríamos viver em todas as épocas do mundo numa hora. Melhor, em todos os mundos das épocas! História, Poesia, Mitologia!
Não conheço leitura da experiência de outro tão surpreendente e instrutiva como esta certamente seria.

Walden- Onde vivi e porque vivi, Henry David Thoreau

terça-feira, 7 de julho de 2009

«O "monstro" precisa de amigos»

Ornatos Violeta - Capitão romance



Por querer mais do que a vida
Sou a sombra do que eu sou
E ao fim nao toquei nem nada
Do que em mim tocou

Eu vi, mas não agarrei
Eu vi, mas não agarrei

...

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Deep blue memories

Um vídeo que retrata bem os Verões da minha infância.
E arrisco eu, de outras tantas.
(sei pelo menos de "uns bons 5 dedos" delas, talvez).


Dos cheiros, do cansaço feliz que só os olhos (nos) sabem carregar, da sensação única de pisar o chão de um terraço solarengo, tudo isto em pleno calor sufocante do Verão passado no interior.
Creio até que as saudades- foram elas as primeiras a aprender a nadar. Espertas, trataram-se bem.
E tudo mais vindo a num simples mergulho em águas que outrora pareciam tão fundas.
Na leviandade de umas férias de Verão, de uma infância, de um sopro de vento quente, na ligeireza de um assobio.
É isso mesmo: inesquecível.

Por aí

O mundo é um livro e quem não viaja arrisca-se a conhecer uma só página.

sábado, 20 de junho de 2009

Uma imagem e uma música

(imagem retirada da net)

É, eu não vou...

...vou antes ficar a ver a novela sossegadinho.
(gosto pouco de confusões e parece que no dia a seguir há banco...)

Jens Lekman, 17 Julho 2009, Salão Brazil, Coimbra
(isto escrito com orgulho!)



Dizem que vai meter meninas indie de franja, dancinhas em bicos de pés, finos e sorrisos.
Coisa pouca, portanto.

No brain, no pain.

The world´s best academical lectures:
http://academicearth.org

Shelly Kagan - Philosophy of life and death

Pelas noites...



How I love to fly a kite
In the middle of the night
Dear god, make me a bird
So I can fly away,
And finally the ghost
Sleeps in it's grave


Gregory Page, The ghost with sad eyes

«Saturday sun came without warning, so no-one knew what to do...»

(imagem retirada da net)

Saturday Sun, Nick Drake

%$#"&%# !!!

A propósito da espetacular agenda de filmes nos cinemas de Coimbra...

E que tal uma sala de cinema alternativo ali no nostálgico Cine-teatro Avenida?

(o candidato à autarquia que o fizer corre o sério risco de levar o meu voto...
...em todo o caso, pondero o voto em branco...)

Reentreé 3

"Na reabertura, a música é por conta da casa", disse ele.

Ainda em jeito baladeiro.
Diz que há dias em que um gajo não dislumbra o sol.
Para a cegueira UV então.


Reentreé 2

"Na reabertura, a música é por conta da casa", disse ele.

E eis que faz uso do "All mixed up", na voz de Mark Kozelek, versão dos dos Red House Painters do hit dos The Cars...
...e o videoclip, depois de gramar aquela "publicidadezinha", delicious...


Crime, disse ela

Ser cosmopolita no significa ser indiferente a um pais y ser sensible a outros, no. Significa la generosa ambicion d querer ser sensibles a todos los paises y todas las épocas, el deseo de eternidad, el deseo de haber sido muchos.

Jorge Luís Borges, CCCB- Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona

Via sms.

Meio limão, um limão, três limuoões...

If life gives you lemons, make lemonade.

E acrescenta-se: e se ainda assim a vida te trouxer azia, dá-lhe no Eno.

Reentreé 1

"Na reabertura, a música é pela conta da casa", disse ele.


Manic Street Preachers - Jackie Collins Existencial Question Time

Aviso à navegação

Seguem-se então uns tantos posts de enxurrada.
À boa maneira do cuidadoso e premeditado bloguer tuga.
Agradeço que abram o chapéu de chuva (ou de sol, vá).

Sobre pressão não consigo

Só para que se saiba.
E nem vale a pena virem com estas tretas, ok?
[ok, Paula? :)...]


Quando o suplício de escrever por escrever se apresenta nestes moldes à minha pessoa, a extrapolação do mesmo para os meus fieis leitores (bem...talvez fieis não seja o melhor termo, ou não fosse a "promiscuidade blogueira" em que vos julgo metidos) é no mínimo, assustadora.
Tenho-vos pois, em muito boas vidas e saúdes.

sábado, 25 de abril de 2009

Coisas que o vento me trouxe

E deixou para o arrastado degustar do fim de semana.
Das tais coisas que deliciosa e docemente não me levam a lado nenhum.
Simplesmente (!?), flutua e faz flutuar.
E ainda bem.

(KO)isas sem sentido (19)

Desconfio que a torneira da minha casa de banho sofra de fenómenos de freezing parkinsónico.
Ou é isso ou estarei a ficar louco.

(KO)isas (com) sentido (20)

A primeira palavra, repetida infantilmente, pela Dª Maria, uma doente que sofreu um AVC hemorrágico extenso, e até ontem e há já cerca de 2 semanas com uma afasia global
(para que se perceba- incapaz de verbalizar, incapaz de compreender o que se lhe diz):
Mãe.
Ou melhor: Mãe, Mãe, Mãe, Mãe, Mãe, Mãe...

E hoje de novo. E amanhã talvez também.
(E até quando ou porquê?)

E depois o parar para pensar: talvez a primeira palavra que todos nós aprendemos a dizer e o caricato de ser também a "primeira" que se reaprende naturalmente um dia mais tarde.
E da Mãe que outrora a embalou nem vê-la.
O que lhe ficou?
E a palavra? O que dela é a palavra? Ou quanto lhe pertence por direito designativo?

Não sei o que resta quando as pessoas ou as coisas se vão, sequer o que fica quando deixamos de conseguir pôr em prática a mera representação simbólica que ao longo dos tempos fomos aperfeiçoando para as denominar.

Mas quando delas nada fica nem símbolos, pois o que fica então?

Muito menos pouco percebo do que um dia as uniu, as desune e volta a reunir um dia mais tarde.


E assim por uns tantos minutos, parado, bati mal. Mesmo mal.
Mas lá segui em frente e, no ridículo e longínquo horizonte apaziguador, encontrei um todo que não passa de uma falsa representação de nada. Absolutamente nada.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Uma imagem: "à noite"

Automat, Edward Hopper (1927)

Isto é com´ós os champôs...

...2 em 1.
Noite fora, só viola, uma só marca: Nick Drake, Bryter Layter (1970).

Nick Drake - Bryter Layter


Nick Drake - Sunday


PS: De nada (perdoem-me a presunção).
Sempre às ordens.

sábado, 18 de abril de 2009

(KO)isas (com) sentido (19)

Há cidades meditativas e cidades levianas.

in A voz subterrânea, Fiódor Dostoiévski

Enjoy the silence

1. **Sexta, 17 de Abril de 2009, Fábrica de Braço de Prata**

Nota a rever: Nicole Eitner.
Apontado em jeito de escrita moleskine, caneta de trazer na mala, topo de página, sublinhado 3 vezes, bolso.

Por trás da porta, já na recta final, o convite do silêncio (Enjoy the Silence dos Depeche Mode) escondia em si a imensidão da Melodia. E não há em como nos enganar quando o silêncio dá assim na mais pura e doce Melodia.
Raios, ainda trago aquela maravilhosa cover comigo, aqui meio colada ao cortéx temporal direito de quem quase roça no hipocampo.
Still processing your request.

O ambiente da Fábrica: indescritível. Talvez (talvez não...porra, de certeza!) o mais aproximado que conheço do País das Maravilhas, verdadeira fábula infantil em versão adulta.
E às páginas (e notas) tantas, ponho-me a pensar que aquilo não pode ser em lugar nenhum: não é na minha Coimbra (infelizmente), nem em Lisboa o é (absoluta negação). É ali e dali vai connosco para todo o lado.


2.

Words like violence
Break the silence
Come crashing in
Into my little world
Painful to me
Pierce right through me
Can't you understand
Oh my little girl

Enjoy the silence...


##Sábado, 18 de Abril, Fnac VG##

sábado, 11 de abril de 2009

A ressurreição do Senhor

...Patrick Watson (& The Wooden Arms)
(é ao que parece o nome dos seus novos apóstolos)

Patrick Watson & The Wooden Arms - Wooden Arms (2009)

Que se lixem as âmendoas, que se lixe o Benfica e o banco de amanhã, que a Páscoa- como o Natal e tantas coisas mais- é quando um gajo quiser.
Venha a nós o Senhor então que agora só dá ISTO.

Boa Páscoa.

Uma imagem e uma frase


«One must have chaos in oneself in order to give birth to a dancing star».

Friedrich W. Nietzsche, Assim Falou Zaratustra

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Insight stroke




Jill Bolte Taylor, neurocientista, contou em Março de 2008, numa das palestras promovidas pela TED:Talks e cujo lema é "Ideas worth spreading", a sua experiência após ter sofrido um AVC hemorrágico em 1996.

Movimento, percepção, emoção, fé, linguagem, está lá tudo empacotado.
E mais que tudo isso, o extraordinário "insight vision" e porque não, como bem demonstra este caso, os ainda enigmáticos limites da plasticidade cerebral.
18 minutos que valem bem a pena.

sábado, 4 de abril de 2009

«Saturday afternoon, he pops»

Kings of Leon - Manhattan



Chegou tarde, confesso, e o vício afigura-se fugaz ao ritmo meio pop da coisa. Salva-se então o desmesurado devaneio presente da adicção, sustentado no desgaste do botão replay, que também por isso é assinalável.
Mas sempre ouvi dizer que mais vale tarde que nunca. Assim seja.

Snapshots

Não pela fotogenicidade mas pela sensação.
Brain-wash.


quarta-feira, 1 de abril de 2009

Quarta-feira, 01.04.09

Red House Painters - Song for a blue guitar



When everything we felt failed
and some music soft in distant sails
but it don't sound like it did before
then I know I'm left with nothing more
than my own soul
when pretty pictures face back
but your coats aren't hanging on the rack
and blue water turns to
a place that I can't get to
a place that I can't

in a room all I feel
is the cold that you left
through the air all I see
is your face full of blame
what's left to see
what's there to see

in the room all I feel
is the cold that you left
through the air all I see
is your face full of blame
what's left to see
what's there to see

what's left to see

E é tudo por hoje e por um dia.
Diz quem sabe, só isto já dava para uma vida.

domingo, 29 de março de 2009

(KO)isas (com) sentido (18)

É simples: aqui, tens os carregadores e os tocadores de piano.
E por cada 4 carregadores, surge 1 tocador volta e meia.
E ao que parece, quase todos nós nascemos para carregadores. É assim.

Mas afinal de contas, quem os afina?

quarta-feira, 25 de março de 2009

(KO)isas sem sentido (14)

A casa: 10 segundos para a desarrumar, uma tarde para voltar a pôr no sítio.
A Natureza é por si injusta.
E a entropia a maior criminosa que pode existir.
Em todo o lado, sempre ausente (como o outro). A monte.
Quem a apanhar, por favor que a desfaça em mil pedaços. Obrigado.

terça-feira, 24 de março de 2009

N´á legendas, N´á nada...

...Foi tudo de férias para o Burkina Faso.
E ficou ISTO:
(quem é como quem diz uma asneira daquelas com tracinho e se,
seguida de centenas de pontos de exclamação)

«Havias de me ver reinar»

Admiráveis mundos Novos.

Yo-Yo Ma & Bobby McFerrin - Hush little baby

domingo, 22 de março de 2009

...

I should have met you when I was sixteen.

sábado, 21 de março de 2009

"Noites iguais"

"Nos dias do equinócio é possível obter uma medida aproximada da latitude por um observador munido de instrumentos muito simples: um fio de prumo, uma fita métrica e um relógio. Para tal, mede-se o tamanho da sombra de um fio de prumo ao meio-dia local.

Sendo h o comprimento do fio de prumo e l o tamanho da sombra na horizontal, a latitude lat, medida ao meio-dia local num dia de equinócio, é dada pela fórmula lat = arctan(l / h)."


Equinócio

Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Em que apetece um ombro o pano de um teatro
um passeio de noite a sós de bicicleta
o riso que ninguém reteve num retrato

Folheia-se num bar o horário da Morte
Encomenda-se um gim enquanto ela não chega
Loucura foi não ter incendiado o bosque
Já não sei em que mês se deu aquela cena

Chega-se a este ponto Arrepiar caminho
Soletrar no passado a imagem do futuro
Abrir uma janela Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo

Rola mais um trovão Chega-se a este ponto
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre
Em que a rota do Sol é a roda do sono
Chega-se a este ponto em que a gente não sabe


David Mourão-Ferreira

Modo: fim de semana

Diz que se liga (em grande estilo) após carregar aí no botão play.
Terapêutico (q.b. id, sem efeitos conhecidos de sobredosagem).
Bom (...).

Nina Simone - Ain´t got no, I got life (Groovefinder remix)



I ain't got no home, ain't got no shoes
Ain't got no money, ain't got no class
Ain't got no skirts, ain't got no sweater
Ain't got no perfume, ain't got no bed
Ain't got no mind,

Ain't got no mother, ain't got no culture
Ain't got no friends, ain´t got no schoolin'
Ain't got no love, ain't got no name
Ain't got no ticket, ain't got no token
Ain't got no god

and what have I got?
why am I alive anyway?
yeah what have I got?
nobody can take away?...

Got my hair, got my head
Got my brains, got my ears
Got my eyes, got my nose
Got my mouth, I got my smile

I got my tongue, got my chin
Got my neck, got my boobies
Got my heart, got my soul
Got my back, I got my sex

I got my arms, got my hands, got my fingers,
got my legs, got my feet, got my toes,
got my liver, got my blood..

I've got life,
I've got my freedom
I've got life
I've got life
and I am gonna keep it
I've got life
and nobody's gonna take it away
I'VE GOT LIFE!!!

sexta-feira, 20 de março de 2009

Sem comentários (6)

A via óptica (ou parte dela), directamente do Neurological Differential Diagnosis, John Patten.

quarta-feira, 18 de março de 2009

«Petra»

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.


No meio do caminho, Carlos Drummond de Andrade

(KO)isas sem sentido (13)

Publicidade a próteses auditivas na caixa do correio todo o santo dia.
Não há paciência. Valham-nos os "ouvidos moucos".
Ou será que metem aquela porcaria a quem (como eu) simplesmente não atende a campainha?

Do you "clap clap clap"?

Keren Ann - Lay your head down


Retirado do sítio onde vou frequentemente "roubar" um outro segredo dos temperos quotidianos.
E sem rodeios, num claro forcing para um turning-back.

domingo, 15 de março de 2009

Para-phrase-ando (2)

«...Há pessoas assim. Que se revelam devagar, que não têm qualquer pressa em mostrar como são, em chegar ao nosso ombro, à nossa frente. Pessoas que têm o tempo do seu lado. O exacto contrário de mim que habito a ansiedade de todas as horas. A primeira vez que a vi nada vi a não ser uma cara, um corpo, gestos. Não me apercebi da clariade da sua face, do seu corpo longo, dos gestos lentos e delicados das mãos e dos braços, das suas incisivas palavras. Demorei muito tempo. Tempo a mais...».

in O Mundo É Tudo o que Acontece, Pedro Paixão

Para-phrase-ando (1)

«É imperioso não esquecer de onde viemos. Da fome, da sede, da servidão. Se assim não for não se saberá habitar sem a indispensável poesia.»

in O Mundo É Tudo o que Acontece, Pedro Paixão

(KO)isas sem sentido (12)


O Céu cá de baixo.
Ainda há quem precise de mais. Mas para quê?
Duvido que haja melhor.

domingo, 8 de março de 2009

Uma imagem vale mais do que mil palavras

[E eu que nem sou grande fã de B.D.]

(Deliciosamente enviado pela Paula em início de semana.)

Pois, reinventemo-nos/reorientemo-nos então.

(KO)isas (com) sentido (17)

Do capítulo das viagens no tempo.

Pixies - Gigantic (live)


O Death to the Pixies na estante a 30 cm da minha mão e 1997 (ano desta compilação) há já 12 anos atrás.
Gritava-se então ao Deus de Ará das borbulhas faciais e pelos 4 cantos: «Gigantic, gigantic, gigantic, A big big love», comandado por uma melodia juvenil, uma voz feminina doce e um baixo de fundo. Numa música que parece que foi feita só para encher algumas juventudes de sentido, de alguma coisa grande.

Havia de ser cobrado um imposto para o saudosismo e aí sim, a ver se isto não andava para a frente.

sábado, 7 de março de 2009

Estreito de Magalhães

Qualidade da leitura é aquilo que poderá deixar de existir caso as «autoridades» continuem a pensar que o uso do computador Magalhães substitui tudo o «resto». Na cabeça desses enormíssimos talentos não cabe uma ínfima parte do «resto»- a leitura pausada, manuseando livros, construindo universos, destruindo certezas, folheando ao acaso. António Barreto, nesta edição da Ler, diz o essencial: «A leitura na escola é a última das preocupações [...] Da maneira como o Governo aposta na informática, sem qualquer espécie de visão crítica das coisas, se gastasse um quinto do que gasta, em tempo e recursos, com a leitura, talvez houvesse em Portugal um bocadinho mais de progresso. O Magalhães, nesse sentido, é o maior assassino da leitura em Portugal. Chegou-se ao ponto de criticar aquilo a que chamaram "cultura livresca", o que é terrível. É a condenação do livro. Quando o livro é a melhor maneira de transmitir a cultura. Ainda é a melhor maneira. A coroa de todo este novo aparelho ideológico que está a governar a escola portuguesa - e noutras partes do mundo- é o Magalhães. Ele foi transformado numa espécie de bezerro de ouro da nova ciência e de uma nova cultura, que, em certo sentido, é a destruição da leitura.»

Francisco José Viegas, editorial da revista Ler, Março 2009

sexta-feira, 6 de março de 2009

Óh não!

Tem dias.

Andrew Bird - Oh no

«Só sei dos caminhos que percorremos sós»

À entrada do fim-de-semana, chuva miúda lá fora, promessa graúda no céu, amordaçado por um negrume que deliciosamente me acorrenta à terra.
Que embala que nem música triste em voz quase sussurrada.
[1, 2, 3, 4, 5...conto às vezes para mim, contra o ruído da chuva, enquanto olho para lá fora.]
Para que conste, até faço parte do clube que não usa chapéu de chuva.
[Nunca percebi essa da necessidade de vestir a camisola, literalmente falando, do clube pelo qual puxamos. Quase cegamente às vezes.]
Janela entreaberta a ouvir o barulho da chuva a cair, no silêncio entre 2 faixas na aparelhagem.
E de repente, se me concentrar bem, soam a palmas de tão estupidamente rítmicas e vindas de todo o lado.
[Porque temos mesmo de começar da casa de partida?]

Tenho para mim que ninguém pára à janela num dia de chuva para apreciar.
[P´ra pensar.]
E ainda não percebi bem porquê.

A mim, a chuva tem este efeito.
Silêncio, "palmas", música.
Silêncio, "palmas".

A próxima faixa é esta então:
Okkervil River - Lost Coastlines
[sim, eu sei :)]

Acerca dos ensinamentos

Nunca ninguém me avisou do choque que seria o dia em que, certo ou não dos meus conhecimentos e do seu rigor, seria altura de ensinar outros. Por direito adquirido. Só. Gelo metafísico, para quem sente ter ainda tanto para aprender.

Na boca dos outros, a experiência- por pouca que seja- traz a capacidade de ensinar menos experientes. Não creio que seja bem assim. Encaro assim isto de ensinar seja o que for (quanto tempo for) como um dos maiores deveres (e desafios) da nossa existência. Não o tomo pois como um direito universal, pseudo-paternalidade de quem é mais velho. Qual bom filho, sempre exigi também que fosse bem ensinado.

Conselhos todos nós podemos dar (há-os bons ou maus) mas ensinamentos não será bem assim. Acho mesmo que não. E ainda não descobri o que nos leva a ter certeza se temos ou não esse dom. Acredito que, pelo menos num nível superior, tamanha capacidade radica não só na clareza, domínio do conteúdo e confiança transpirada na transmissão dos mesmos, mas também muito nessa coisa a que se vulgarizou chamar de fascínio, deslumbramento, admiração, carisma (a propósito, há uns dias na Super Interessante um artigo sobre a importância da imagem na sedução- parece que pessoas bonitas convencem mais facilmente, ocupam lugares de destaque por naturalidade). Simples captação do momento, to shine or not to shine. Mais: tenho a certeza que em poucos minutos fascinei-me eternamente (ou pelo menos, por um bom tempo que ainda dura até hoje) por coisas que ter-me-iam passado ao lado, e que de outra forma não me teriam marcado, se naquele preciso instante não me tivessem sido ensinadas da maneira que foram.
Palavras certas, expressões correctas, gestos brilhantes, imprintings certeiros. A lógica aliada à estética é o paraíso.


De forma que tudo isto mexeu comigo muito mais do que a minha primeira entrega de declaração de rendimentos (se é que isso mexe com alguém).

domingo, 1 de março de 2009

«Havias de me ouvir assobiar»

Andrew Bird - Sovay (live)



Hoje a "missa", na voz de outro grande pároco.
O sermão é dado assim em jeito de assobio.
Fenomenal.

Dos diários em terra firme (fim)

Depois do filme há uns anos atrás, lancei-me na leitura dos diários (Viajem pela América, Che Guevara, Edições Dinossauro, 1996), após ter descoberto esta aquisição de então, forrada a umas boas gramas de pó, na minha estante. Os diários elaborados por Che em 1951 (então com 23 anos), aquando da sua primeira viajem com o amigo Alberto Granado. Os mesmos que deram origem então ao filme.
Anos mais tarde (já com 25 anos) havia de repetir a façanha, agora com outro amigo (Carlos Ferrer- Calica), viajem essa que também resultou num livro, recentemente editado (De Ernesto a Che, Guerra e Paz), quase meio século depois, desta feita na voz do companheiro, mas sem esquecer o enfoque inevitável naquela personagem histórica.

Muito mais do que quaisquer ideologias (o que é a vida senão uma sucessão de ideais- ou o definitivo momento da sua ausência, a burilar dentro de nós?), claramente ainda bastante embrionárias num Ernesto social ainda em construção (e para o qual muito ajudou esta viagem). A certeza que a juventude é a melhor altura para partir à descoberta do mundo, dos outros e assim (porque não?) também de nós próprios.
Plasticidade, ingenuidade, sonho, alguma loucura, força, ternura (e porque não também alguma indiferença egoísta? daquela que nos permite largar tudo quando queremos...de quem tem uma vida pela frente), camaradagem e fraternidade, tempo (claro- e tempo é dinheiro, não vale a pena negá-lo), acuidade máxima dos 5 sentidos, registos mnésicos frescos. Verdadeiras esponjas. Eis os ingredientes principais.
Fica o "bichinho" da viagem. (Mais ainda). Não de avião (do rápido e confortável avião) mas por terra. De descobrir a América do Sul e qualquer pedaço navegável no planisfério, mas também à imagem de Che, das diferenças no nosso próprio país, no nosso velho continente até. Da viagem não inconsequente.
Ainda que a ideia da descoberta esteja nos dias que correm banalizada, facilitada quiçá até. Toda a gente parte de mochila para algum lado (laptop incluído) e volta cheio de histórias para contar. Tropeçamos nestas ao entrar em qualquer livraria. Fico a pensar qual o sentido de partir para uma expedição deste tipo (e porque corremos sempre o risco de não trazer grande coisa de volta- "A viagem correu bem?") com a obrigação de ter à partida uma história pré-acordada, roçando quase a subversão das coisas: a celebração da chegada quando ainda mal se partiu.

Pois que de uma viagem não se pretende na maioria das vezes que seja dura, mas sim descansada, é certo. O ritmo das coisas assim o dita, não vale a pena contrariá-lo, não vale a pena julgar quem assim o faz. Todos nós já o fizemos, todos nós o faremos um dia. Mas esquecemo-nos que o mais importante talvez seja o caminho e não o fim, que talvez o verdadeiro sentido daquela seja a necessidade de nos esticarmos ao fim de um dia, mortos de cansaço. Aí sim, algures entre meia dúzia de passos perdidos no horizonte que ficou para trás, estamos a escrever a história, a mudar(-nos). A viajar.


Imagem retirada de um blog

Ainda os diários dos outros (5)

Do borbulhar dos ideais.
As estrelas crivavam de luz o céu daquele povoado serrano e o silêncio e o frio tornavam a escuridão imaterial. Era- não sei bem como explicá-lo- como se toda a substância sólida se volatilizasse no espaço etéreo que nos rodeava, nos roubava a individualidade e nos fazia sumir, transidos, na negrura imensa. Nem uma nuvem a bloquear uma porção de céu estrelado, para dar perspectiva ao espaço. No entanto, a uns metros, a luz mortiça de um farol dava alguma cor às trevas circundantes.
A cara do homem perdia-se na sombra. Só emergiam, como centelhas, os seus olhos e a brancura dos quatro dentes dianteiros. Ainda não sei se foi o ambiente ou a personalidade do indivíduo o que me preparou para receber a revelação. Mas sei que ouvira muitas vezes os argumentos empregados, esgrimidos por pessoas diferentes, e nunca me tinham impressionado. Na realidade, o nosso interlocutor era um tipo interessante; fugido, em jovem, de um país da Europa para escapara ao punhal dogmatizante, conhecia o sabor do medo (uma das poucas experiências que nos fazem dar valor à vida). Depois, viajando de país para país e passando por milhares de aventuras, tinha dado com os ossos nessa região afastada e ali esperava pacientemente o momento do grande acontecimento.
Depois das frases triviais e dos lugares comuns com que cada um apresentou a sua posição, quando já a discussão esmorecia e estávamos prestes a separar-nos, ele deixou cair esta frase, com o mesmo riso de garoto pícaro que sempre o acompanhava, acentuando o contraste dos quatro incisivos dianteiros: "O futuro é do povo e, pouco a pouco ou de repente, ele vai conquistar o poder, aqui e em toda a terra. O mau é que tem de civilizar-se e isso não se pode fazer antes, mas depois de tomar o poder. Só se civilizará aprendendo à custa dos seus próprios erros, que serão muito graves, que custarão muitas vidas inocentes. Ou talvez não, talvez não sejam inocentes porque cometerão o enorme pecado contra natura que significa não ter capacidade de adaptação. Todas essas vítimas, todos os inadaptados, você e eu, por exemplo, morrerão maldizendo o poder que contribuíram para criar, com sacrifício às vezes enorme. É que a revolução, na sua forma impessoal, roubar-lhe-á a vida e até utilizará a memória do que deles ficar como exemplo e instrumento para domesticar a juventude que surja.
O meu pecado é maior, porque eu, mais subtil ou com maior experiência, (chame-lhe como quiser) morrerei sabendo que o meu sacrifício corresponde só a uma obstinação. Que simboliza a civilização apodrecida que se desmorona e que mesmo que não modifique em nada o curso da história, ou a impressão pessoal que de mim tenha, você morrerá com o punho fechado e os dentes cerrados, numa perfeita demonstração de ódio e combate, porque não é um símbolo (algo inanimado que se toma como exemplo). Você é um autêntico membro da sociedade que se desmorona: o espírito da colmeia fala pela sua boca e move-se nos seus actos; é tão útil como eu, mas desconhece a utilidade do contributo que dá à sociedade que o sacrifica".
Vi os seus dentes e a expressão picaresca com que se adiantava à história, senti o aperto das suas mãos e, como o murmúrio longínquo, a protocolar saudação de despedida. A noite, depois de recuar ao contacto das suas palavras, tomava-me novamente, confudindo-se com ela. Mas, apesar do que ele dissera, agora sabia...sabia que, no momento em que o grande espírito director der o enorme golpe que dividirá toda a humanidade em apenas duas facções antagónicas, estarei com o povo. E sei, porque o vejo impresso na noite, que eu, o ecléctico dissecador de doutrinas e psicanalista de dogmas, uivando como um possesso, assaltarei as barricadas ou trincheiras, tingirei de sangue a minha arma e, louco de fúria, degolarei todos os vencidos que me caiam nas mãos. E vejo-me, como se um cansaço enorme derrubasse a minha recente exaltação. cair imolado à autêntica revolução estandardizadora de vontades, pronunciando o "mea culpa" exemplar. Já sinto as narinas dilatadas, saboreando o acre odor de pólvora e de sangue, da morte inimiga; já crispo o meu corpo, pronto para a luta, e preparo o meu ser como um reduto sagrado, para que nele ressoe, com vibrações novas e novas esperanças, o uivo bestial do proletariado triunfante.

in Viagem pela América, Ernesto Che Guevara

Ainda os diários dos outros (4)

Dos momentos de verdadeira transcendência e eloquência, elevadas pela sinceridade da palavra jovem e sonhadora.
À noite, depois de passar por casa do doutor Bresciani, que nos presenteou com uma rica e abundante refeição, receberam-nos no nosso refeitório com a bebida nacional, o pisco, de cujos efeitos no sistema nervoso central Alberto tem experiência exacta. Já com ânimos um tanto alegrados, o director da colónia fez-nos um brinde muito simpático e eu, já meio "piscado", elaborei mais ou menos o discurso que se segue:
"Bom, é uma obrigação para mim agradecer com algo mais que um gesto convencional o brinde que nos oferece o Dr. Bresciani. Nas condições precárias em que viajámos, só nos resta a palavra como recurso da expressão afectiva, e é empregando-a que quero manifestar o meu agradecimento, e o do meu companheiro de viagem, a todo o pessoal da colónia que, quase sem nos conhecer, nos proporcionou esta magnífica demonstração de afecto, que significa para nós a deferência de festejar o nosso aniversário, como se fosse a festa íntima de algum de vós. Mas há algo mais; dentro de poucos dias deixaremos o território peruano, e por isso estas palavras assumem um segundo significado, o de uma despedida. Aqui ponho todo o meu empenho em expressar o nosso reconhecimento a todo o povo deste país, que sempre nos cumulou de amabilidades, desde a nossa chegada a Tacna. Quero salientar mais uma coisa, um pouco à margem do tema deste brinde: ainda que a modéstia das nossas pessoas nos impeça de ser porta-vozes de tal causa, cremos, e depois desta viagem mais firmemente que antes, que é completamente fictícia a divisão da América em nacionalidades incertas e ilusórias. Consitituímos uma só raça mestiça que, desde o México até ao estreito de Magalhães, apresenta notáveis semelhanças etnográficas. Por isso, procurando libertar-me de toda a carga de provincialismo estreito, brindo pela Perú e pela América Unida".
As estrelas crivavam de luz o céu daquele povoado serrano e o silêncio e o frio tornavam a escuridão imaterial. Era- não sei bem como explicá-lo- como se toda a substância sólida se volatilizasse no espaço etéreo que nos rodeava, nos roubava a individualidade e nos fazia sumir, transidos, na negrura imensa. Nem uma nuvem a bloquear uma porção de céu estrelado, para dar perspectiva ao espaço. No entanto, a uns metros, a luz mortiça de um farol dava alguma cor às trevas circundantes.

in Viagem pela América, Ernesto Che Guevara

Ainda os diários dos outros (3)

Dos truques cúmplices de qualquer boa amizade.
Quando faltava pouco para amanhecer, encontrámo-nos com um par de bêbados e iniciámos o nosso magnífico número do aniversário. A técnica é a seguinte:
1) Diz-se em voz forte uma frase inicial, por exemplo: "Che, por que não te apressas e não te deixas de parvoíces?". O candidato cai no logro e imediatamente nos pergunta de onde vimos, inicia-se a conversa.
2) Começa-se a contar as dificuldades em voz suave, com o olhar perdido ao longe.
3) Intervenho eu e pergunto a data. Alguém a diz; Alberto suspira e comenta: "Olha que coincidência, faz hoje precisamente um ano!" O candidato pergunta: um ano que quê? Responde-se: que iniciámos a viagem.
4) Alberto, muito mais fiteiro que eu, lança um suspiro terrível e diz: "Que pena estarmos nestas condições! Se não, poderíamos festejar..." (diz-me isto como que confidencialmente). O candidato oferece-se logo e nós fazemo-nos esquisitos um momento, dizendo-lhes que não podemos retribuir-lhe, etc, até que aceitamos.
5) Depois do primeiro copo, eu nego-me terminantemente a aceitar mais um trago e Alberto faz troça de mim. O anfitrião zanga-se e insiste; eu nego-me, sem dar razões. O homem insiste e então eu, muito envergonhado, confesso-lhe que na Argentina o costume é comer enquanto se bebe. A quantidade de comida já depende da cara do cliente, mas é esta é uma técnica bem apurada.


in Viagem pela América, Ernesto Che Guevara

Ainda os diários dos outros (2)

Da viagem (vi)vida.
Assim, a moeda foi lançada ao ar, deu muitas voltas; caiu umas vezes "cara", outras "coroa". O homem, medida de todas as coisas, fala aqui pela minha boca e relata na minha linguagem que os meus olhos viram; na melhor das hipóteses, em cada dez "caras" possíveis só vi uma "coroa", ou vice-versa; é provável e não há atenuantes; a minha boca narra o que os meus olhos lhe contaram. A nossa vista nunca foi panorâmica, foi sempre fugaz, nem sempre equitativamente informada, os juízos são demasiado determinantes? De acordo, mas esta é a interpretação que um teclado dá ao conjunto de impulsos que levaram a martelar as teclas e esses fugazes impulsos morreram. Não há sujeito sobre quem exercer o peso da lei. O personagem que escreveu estas notas morreu ao pisar de novo terra argentina; o "eu" que as ordena e burila não sou eu; pelo menos não sou o mesmo eu interior. Esse vaguear sem rumo pela nossa "Maiúscula América" mudou-me mais do que julguei.

Agora sei, quase com uma fatalista conformação, que a minha sina é viajar, a nossa sina, melhor dito, porque Alberto nisso é igual a mim; no entanto, há momentos em que penso com profundo anseio nas maravilhosas regiões do nosso Sul. Talvez um dia, cansado de rodar pelo mundo, volte a instalar-me nesta terra argentina e então, se não como morada definitiva, pelo menos como lugar de trânsito para outra concepção do mundo, visitarei novamente e habitarei a zona dos lagos das cordilheiras.

in Viagem pela América, Ernesto Che Guevara

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Adventismos do 7ºdia

Ao Sábado, "tem a palavra o Senhor".
A homilia de hoje pois então:

Jeff Buckley - Yard of blonde girls (live)


Through the yard, through the yard of blonde girls
through the river and the sea
gold sharks glittering
a tree of white breaks the earth
the streets where lola played
very sexy, very sexy

okay, okay
fear, we may come

so run, run, run, run, run, run, run.


Assim repetida umas boas 4 vezes.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Decussação

The National - So far around the bend
(da colectânea Dark was the night)



Nobody knows where you are living
Nobody knows where you are
You're so far around the bend.


Assim num instante, entre a vascularização do tronco cerebral e seus AVCs, no cansaço do esforço contínuo da percepção tridimensional.
Havia de se estudar Neurologia com um daqueles óculos 3D, penso às vezes.
Mais a velha benção da ignorância, sempre.

E em pleno síndrome de Wallenberg, a decussação do meu pensamento.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O meu mundo e(´) a minha janela

«How often do you find the right person?»


Num cantinho da Fábrica Braço de Prata.

(KO)isas sem sentido (11)

O Carnaval.

Para mim, nem libação religiosa (quais "dias gordos"), nem palhaço, nem máscara de Veneza, "não obrigado" à folia extrema, quase sempre tudo contado na voz estridente de um narrador com sotaque do outro lado do Atlântico.

Pura obrigação de festejar seja lá o que for. Roça a estupidez maniqueísta do Reveillon (e porque não do Dia dos Namorados também, do dia da Mãe, do Pai, do Avô, da Avó- ai não, é só um para os dois?!!, da Criança, de Plantar Árvores, da Paz no mundo, da Música, de Pisar as Listas Brancas das Passadeiras ou de Lambermos todos nós 20 selos cada um para enviarmos em correio registado e com aviso de entrega para a Antárctica?).
Excepção feita aos caretos de Podence "que-os gajos-parece-que-correm-que-sa-fartam", talvez por isso goste é do Natal que como todos nós sabemos "é quando um gajo quiser". E as iluminações vão de finais de Outubro a Janeiro. Ora há de haver ali um santo dia em que um tipo acorda com o dito espírito.
No Natal sim, aí é que há tolerância. Já o Reveillon ou o Carnaval não (não me venham com essa). Ou estás para isso ou então azar.

E mais: de samba (além da mais que evidente falta de jeito, quiçá genética desviante) já me bastam as danças do dia-a-dia.
Não obrigado.

(KO)isas (com) sentido (16)

Afinal de contas, de que é feito o "cheiro das casas" ?
(mas quem é que já não reparou nisto?)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

(KO)isas sem sentido (10)

Diz que é uma espécie de afasia.

Eu: Sr. Hermínio, então bem disposto?
Sr. Hermínio: Pois sim, de modo que...ainda bem que eles «mastra», amanhã...«porterti»...hmm, hmmm. Pois, ainda não «rurtipo».

Isto assim há já umas boas 2 semanas.
Prezam-me outras melhoras, noutros aspectos.
Há coisas que tomamos tão nossas que quando as perdemos nem contadas. Só vistas (e revistas).

domingo, 22 de fevereiro de 2009

World Press Photo 2008

Aqui.
Vale bem a pena.

Das minhas favoritas:




Dos diários dos outros

«A lua cheia recorta-se sobre o mar e cobre as ondas de reflexos prateados. Sentados numa duna, miramos o contínuo vaivém com diferentes estados de espírito: para mim, o mar sempre foi um confidente, um amigo que absorve tudo o que lhe contam sem revelar nunca o segredo confiado e que dá o melhor dos conselhos: um ruído cujo significado cada um interpreta como pode...»

in Viagem pela América, Ernesto Che Guevara

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Uma imagem vale mais do que mil covers

O cover da Last Goodbye do mestre Buckley feito pela Scarlett Johansson...

Louva-se o bom gosto musical da menina, pouco mais.
Ainda não me convenceram os seus dotes musicais.
E ao que parece não sou o único com esta opinião.

Quanto à minha avaliação da sua nova aventura musical, e socorrendo-me das imagens que ela própria já nos proporcionou no grande ecrã...

Ensaio sobre a cegueira

Manic Street Preachers - Motorcycle emptiness
(Generation Terrorists, 1992)



Culture sucks down words
Itemise loathing and feed yourself smiles
Organise your safe tribal war
Hurt maim kill and enslave the ghetto

Each day living out a lie
Life sold cheaply forever, ever, ever

Under neon loneliness motorcycle emptiness
Under neon loneliness motorcycle emptiness

Life lies a slow suicide
Orthodox dreams and symbolic myths
From feudal serf to spender
This wonderful world of purchase power

Just like lungs sucking on air
Survivals natural as sorrow, sorrow, sorrow

Under neon loneliness motorcycle emptiness
Under neon loneliness motorcycle emptiness

All we want from you are the kicks you´ve given us
All we want from you are the kicks you´ve given us
All we want from you are the kicks you´ve given us
All we want from you are the kicks you´ve given us

Under neon loneliness motorcycle emptiness
Under neon loneliness motorcycle emptiness

Drive away and its the same
Everywhere death row, everyones a victim
Your joys are counterfeit
This happiness corrupt political shit

Living life like a comatose
Ego loaded and swallow, swallow, swallow

Under neon loneliness motorcycle emptiness
Under neon loneliness motorcycle emptiness
Under neon loneliness motorcycle emptiness
Under neon loneliness everlasting nothingness



Relembrado aos meus ouvidos, numa vaga sensação familiar de estranheza doce.

("Como podemos sentir saudades de tempos que não vivemos?",
ecoando em mim.
Boa pergunta.)

Ao acordar um Sábado destes. Via MTVtwo.
Uma grande música e uma letra misteriosa.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Queres tu lá ver...

...que voltaram os Fleet Foxes?

Fleet Foxes - Mykonos, Sun Giant EP

Cloridrato de propranolol

Voltar a Lisboa por uns dias.
Mesmos caminhos, mesmos horários mas sentido inverso.
Novo estatuto: visitante.
Roça a crise conversiva, verdadeiro poço de dúvidas existenciais.

Ainda Darwin

A rendição/redenção dos últimos cépticos.
Ou a crónica de Pedro Mexia no Público de ontem.

Citando os mestres

«O prazer que experimentamos em ocasiões como esta desorienta a mente- se o olhar seguir o voo duma borboleta garrida fica entretanto preso numa qualquer árvore ou fruto estranhos, se observarmos um insecto a flor em que ele repousa consegue que dele nos esqueçamos...a mente é um caos de deslumbramento.»


Charles Darwin,
algures numa parede de A Evolução de Darwin

na F. Calouse Gulbenkian

«Havias me ouvir tocar piano» (2)

Michael Nyman - Debbie

Para ouvir aqui.
Se te restassem apenas 8 minutos e 16 segundos, o que farias?
Eis a minha sugestão.

Uma das 9 canções do polémico filme 9 Songs de Michael Winterbottom (2004).

Do you feel like 90s?

The Lightning seeds - Lucky you

Entre : linhas (a consequência das coisas)

Chegar ao fim de Os Cus de Judas de A.L.A. e não partilharmos daquela revolta. Deve ser impossível. Lógica causa-efeito, axiomático, pura consequência. De mestre fantocheiro.
O Chiúme, Ninda, a Baixa do Cassanje e a África que não conheço senão de relatos, de histórias de outros. Tudo no meu sofá, e eu de livro numa mão e de G3 na outra às vezes. «Cabrões».
E momentos há em quase é preciso tomar qualquer coisa para os nervos, tal o estado da «cousa».
(Foram mesmo quantos litros de chá?)

Irascível, revoltante, genial, sublime, fel mas também doce e terno, às vezes.
Como que, sem dar por nós, ali estamos em pleno campo de batalha, no acampamento rodeado de arame (brilhante a capa da edição de bolso do Grupo Leya- já agora, barato, pega-se bem e leva-se para qualquer lado- comprem!), soldado raso e porque não médico de campanha (a personagem em questão também com vinte e poucos), ocupado de cotos e tudo o mais que possa restar de minas antipessoais, dia fora.
(e eu a cantarolar Walking Away na Pequena Cirurgia do HSM...que raio de existência esta?).

E aquele pensamento angustiante e insistente, cravejado a rajada de metralhadora com que um tipo se deita: «caralho caralho caralho caralho, foda-se».
Se me lixassem por estes dias à grande, era gajo para debitar aquilo de enfiada.
O expoente máximo da genialidade do autor. Debaixo da sua caneta, sob o controlo da sua mão, sublimes, quasi-poesia, atribuindo a tamanhas palavras uma altivez que não pode constar do vulgar prontuário do calão.

Onde está o substracto da vida? a base de tudo? Onde te fazes? Que provas?
(E a quanto é que estão mesmo as olheiras, as cicatrizes, os quilos a mais, a voz tornada grave pela vida?)

«Em Mangando e Marimbanguengo, vi a miséria e a maldade da guerra, a inutilidade da guerra nos olhos de pássaros feridos dos militares, no seu desencorajamento e no seu abandono, o alferes em calções espojado pela mesa, cães vadios a lamberem restos na parada, a bandeira pendente do seu mastro idêntica a um pénis sem força, vi homens de vinte anos sentados à sombra, em silêncio, como os velhos nos parques, e disse ao furriel enfermeiro, que desinfectava o joelho com tintura, É impossível que um dia destes não tenhamos para aqui uma merdósia qualquer, porque, sabe como é, quando homens de vintes anos se sentam assim à sombra, num tão completo desamparo, algo de inesperado, e estranho, e trágico acontece sempre, até que me vieram informar do rádio Um tipo deu um tiro em Mangando, e eu corri para o carro onde a escolta me aguardava a aprontar-se ainda, e seguimos aos saltos para o norte pela picada que a chuva destruíra

E há uns dias, desarmado da minha verde espada, em qualquer coisa como isto: «é tudo muito lindo, também eu gosto muito de tudo isso mas é quando um tipo tem a barriga cheia, sabes? Eu que já passei fome vos garanto que quando a barriga está vazia, não há moral, política, filosofia, música, etc que nos valha. Nada disso nos interessa, vos garanto.»

«Já lhe aconteceu observar-se quando está sozinha e os gestos se atrapalham numa desarmonia órfã, os olhos procuram no seu reflexo uma companhia impossível, a gravata de bolas nos confere o aspecto derisório de um palhaço pobre a representar o seu número sem graça para um circo vazio?»
Já.
Menino de estantes, voyeur sequioso do sofrimento alheio, orgasmonauta da sublimação dos outros, frustrado, parasita. Um-quase-nada-ao-lado do menino do pólo branco que todos os domingos monta o seu Lucky Star para regozijo do papá, não muito menos do que o comunista de barriga cheia lendo Trotsky no seu sofá de couro de 2000 contos. «Puta que vos pariu». A todos.


Por estes dias, admito que andei meio banzado com isto tudo.
Pequenino, muito pequenino. Sem vontade de escrever, disártrico. Rindo a espaços.
Que merda é esta que para aqui vomita um gajo às vezes blogs fora? Que merda é esta agora que para aqui escrevo? Tudo muito lindo, sim senhor. Comentários a isto e àquilo, tudo opina, tudo pensa...extraordinário. Que sei eu de política?- felizmente que não a comento, ando a pensar/procurar a frase que hei de esparramar no boletim de voto nas próximas eleições- mas vou lá, que sei eu daquilo que julgo estar habilitado a fazer? quem me habilitou? quem me habilita? que sei eu daquilo que gosto quando me apercebo que o pouco que um gajo vai apreciando é uma insignificância? De que gosto eu se amanhã o gosto é outro? Que treta é essa dos gostos mudarem de 7 em 7 anos? Onde estás tu daqui a 10 já agora? que sei eu da Vida?

«O que seria de nós, não é, se fossemos de facto felizes? Já imaginou como isso nos deixaria perplexos, desarmados, mirando ansiosamente em volta em busca de uma desgraça reconfortadora, como as crianças procuram os sorrisos da família numa festa de colégio? Viu por acaso como nos assustamos se alguém, genuinamente, sem segundos pensamentos, se nos entrega, como não suportamos um afecto sincero, incondicional, sem exigência de troca?»

Regresso à normalidade interior, na certeza que há uma força motriz de muito do que se passa à nossa volta. Substracto, substracto.

«Não, a sério, a felicidade, esse estado difuso resultante da impossível convergência de paralelas de uma digestão sem azia com o egoísmo satisfeito e sem remorsos, continua a parecer-me, a mim, que pertenço à dolorosa classe dos inquietos tristes, eternamente à espera de uma explosão ou de um milagre, qualquer coisa de tão abstracto e estranho como a inocência, a justiça, a honra, conceitos grandiloquentes, profundos, e afinal vazios que a família, a escola, a catequese e o Estado me haviam solenemente impingido para melhor me domarem, para extinguirem, se assim me posso exprimir, no ovo, os meus desejos e protestos de revolta. O que os outros exigem de nós, entende, é que os não ponhamos em causa, não sacudamos as suas vidas miniaturiais calafetadas contra o desespero e a esperança, não quebremos os seus aquários de peixes surdos a flutuarem na água limosa do dia-a-dia, aclarada de viés pela lâmpada sonolenta do que chamamos virtude e que consiste apenas, se observada de perto, na ausência morna de ambições.»

Pois então que paro por uns tempos. Agora digiro- é certo, mas afigura-se-me que o próximo de A.L.A. seja mesmo a "Morte de Carlos Gardel". Ando a saltitar, sem qualquer espécie de cronofilia entre as várias obras do autor. Conto que lá para 2010 tenha lido todos (ou quase todos). Assim espero.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Snapshots

O meu cacifo lá pelo hospital e a respectiva "etiqueta" de baptismo.
Ilustrada na figura do Nemo que para mim, por si só, já diz tudo.


5 anos.

«I´m not scared».

«No, I´m not» (a ranger os dentes e de olhos esbugalhados).

domingo, 8 de fevereiro de 2009

«Havias de me ouvir tocar piano»

Jamie Cullum - High and Dry (Radiohead cover)

«Pois então parece que os dias só dão para isto»

Shou Out Louds - Impossible



Let's not fall back to sleep like we used to, do you remember?

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

«I wonder how many people in this city»

Night Windows, Edward Hopper

I wonder how many people in this city
live in furnished rooms.
Late at night when I look out at the buildings
I swear I see a face in every window
looking back at me,
and when I turno away
I wonder how many go back to their desks
and write this down.


Leonard Cohen, The Spice-Box of Earth (1961)